Aula de Técnica Vocal
por Ramon Tessmann
O canto é composto por partes: Respiração, articulação, percepção, técnica e interpretação. Antes de entrarmos detalhadamente em cada uma delas, vamos a algumas considerações gerais que são importantes e também fazem parte do ato de cantar:
POSTURA CORPORAL - Temos que sempre ter em mente que quando cantamos estamos
utilizando um instrumento musical um pouco mais complexo que os demais:
nosso corpo. Você nunca obterá grandes resultados se desconsiderar
este fato, pois o mecanismo do ato de cantar está intimamente ligado
a diversas partes do corpo, e uma desarmonia em alguma dessas partes prejudica
consideravelmente sue rendimento como um todo. Preste atenção
no dia-a-dia e veja que nossa voz não mantém uma constância,
ela se altera de acordo com situações e circunstâncias
que vivemos, principalmente relacionadas as emoções. Portanto
as considerações feitas a respeito da parte física
do nosso corpo são também reflexo de uma tentativa de harmonizar
as emoções e ansiedades que sentimos, fruto de uma rotina
estressante, carregada de responsabilidades, compromissos e obrigações.
A postura corporal é muito importante neste ponto, pois quando cantamos
precisamos sentir segurança, apoio, que não vêm, desta
vez, de fontes externas, como um diploma ou uma conta bancária farta,
e sim do nosso próprio corpo. Distribuindo o peso do nosso corpo
entre os dois pés, observando em seguida um encaixe perfeito da cintura
pélvica (quadril), em equilíbrio com os ombros e mantendo
um ângulo de 90 graus para o queixo, podemos aproximar-nos de uma
figura em equilíbrio. Mantenha ainda os joelhos levemente flexionados,
e tenha certeza que a velha postura militar de peito para frente, barriga
para dentro, joelhos para trás e calcanhares afundados no chão
é extremamente desconfortável, falsa e prejudicial à
saúde, pelas altas tensões musculares proporcionadas.
O PESCOÇO - A postura do pescoço está determinada pelos
pés, joelhos, eixo corporal e pelo equilíbrio da cintura com
os ombros. O pescoço necessita estar alinhado com a coluna, sem estar
caído para a frente e muito menos para trás, mas sim perfeitamente
equilibrado dentro do eixo corporal. Se o pescoço estiver alongado
para cima, o trato laríngeo também estará alongado,
passando a trabalhar em condições precárias; se estiver
enterrado no peito, igualmente o trato vocal se vê aprisionado e sem
possibilidade de realizar seus movimentos específicos.
ARTICULAÇÕES - Se as articulações estiverem
muito tensas, no máximo de seu estiramento, é bem provável
que o cantor tenha problemas na emissão das palavras e na produção
da voz, portanto o relaxamento das articulações e músculos
é fundamental estar presente na rotina de nossa vida.
RELAXAMENTO - A produção sonora do ser humano está
ligada orgânicamente como um todo; desde a postura corporal ao funcionamento
íntimo de órgãos e sistemas biológicos, ao desempenho
do padrão de pensamento de cada um, ao tipo de cultura que envolve
o indivíduo, bem como o seu potencial econômico, enfim, todos
esses fatores estão envolvidos no ato da fala. Um indivíduo
tenso está sempre muito próximo dos problemas da voz. As tensões
musculares são responsáveis por dificuldades respiratórias,
articulatórias e demais envolvimentos da produção da
voz e da fala. Existem vários tipos de relaxamento, dependendo do
nível de tensão que podemos estar sofrendo, e em se tratando
de corpo e emoções é recomendável que se cuide
de cada caso individualmente.
Um tipo de exercício que pode ser feito independente de análise
é a soltura das articulações com movimentos giratórios
lentos, indo do pescoço, ombros, braços até a cintura,
joelhos e tornozelos. A energia psíquica flui melhor por um corpo
relaxado, facilitando o contato com as emoções e a comunicação
do cantor com o público.
RESPIRAÇÃO - A respiração é a base de
toda a técnica de canto. A ela estão diretamente ligadas a
afinação, colocação e volume da voz e resistência
do cantor. Vejamos como funciona:
AQUECIMENTO - O ar, ao entrar no nariz, sofre um processo de aquecimento
em virtude de uma grande concentração de vasos sangüíneos
ali localizados e que se modificam segundo a alteração climática
externa. Os vasos sangüíneos que irrigam a região contraem-se,
segurando a circulação sangüínea por mais tempo
quando a temperatura ambiente está baixa, dando a sensação
que o nariz ficou gordo por dentro. Com este procedimento, a cavidade nasal
fica muito mais aquecida, como uma estufa que vai favorecendo assim o ar
que, na sua passagem pelo nariz, vai recebendo o aquecimento necessário
ao bom funcionamento orgânico. No entanto, se o dia estiver quente,
os vasos sangüíneos permitem uma circulação mais
ativa, como se o nariz estivesse muito amplo. Essa regulagem calórica
trabalha muito a favor do cantor, que só deve permitira entrada buco-nasal
do ar em ambientes cobertos. Quando estiver ao ar livre, a entrada de ar
deve ser feita pelo nariz, principalmente se estiver frio, evitando sempre
que possível, que o ar gelado perturbe a mucosa da faringe ou mesmo
da laringe, de onde poderia advir uma rouquidão indesejada.
FARINGE - É um tubo musculo membranoso que se inicia na base do crânio
e segue até a Sexta vértebra cervical, onde tem continuidade
com o esôfago e com a laringe, ocorrendo neste ponto o cruzamento
dos sistemas digestivo e respiratório.
LARINGE E CORDAS VOCAIS - A laringe abre-se na base da língua. Situa-se
na parte mediana do pescoço, comunicando-se com a traquéia
na parte inferior e com a faringe na parte superior. Na laringe encontramos
as cordas vocais, responsáveis pela produção do som.
O treino da técnica vocal (vocalizes) irá atuar nas cordas
vocais como exercícios de alongamento, fazendo elas irem de sua posição
dilatada (sons graves) para a alongada (sons agudos) várias vezes,
buscando aos poucos uma maior elasticidade que se refletirá em aumento
da tessitura vocal e maior precisão na afinação das
notas.
DIAFRAGMA E PULMÕES - O diafragma é um grande músculo
em forma de cúpula, de concavidade inferior, que separa a cavidade
torácica da abdominal. Ele fica abaixo dos pulmões, que são
a principal área de ressonância das notas médio-graves.
Quando inspiramos, o diafragma desloca-se para baixo, deslocando a cavidade
abdominal e ampliando a cavidade torácica, enquanto os músculos
inter-costais dilatam as costelas, promovendo uma pressão negativa
em relação ao meio ambiente, induzindo-se o ar para dentro
dos pulmões, como se fosse uma máquina de sugar instalada
na base pulmonar. Teremos então a região abdominal e inter-costal
dilatadas, o que não deve acontecer com a parte alta do peito, que
permanecerá relaxada para facilitar a liberação do
ar na expiração. Nesta etapa, os músculos dilatados
agora se contraem, empurrando a parte baixa dos pulmões, expulsando
o ar para cima. Durante o ato de cantar, estes músculos devem ficar
rígidos, mantendo a pressão nos pulmões para que tenhamos
o apoio necessário para manter a voz corretamente colocada, sem ter
que buscar força adicional na região da garganta. Enquanto
cantamos, mantemos sempre uma reserva de ar na parte baixa dos pulmões,
repondo apenas o ar gasto para a emissão das notas, o que nos dá
condições de fazer inspirações curtas entre
as frases cantadas. Óbvio que em frases ou notas longas podemos utilizar
todo o ar armazenado.
ÁREAS DE RESSONÂNCIA - São as regiões ocas do
nosso corpo onde o som se amplifica. As principais são: pulmões
(ressoa notas graves e médias) e cabeça (ressoa notas agudas).
Na cabeça temos a região nasal, que pode ser usada para realçar
os timbres médios e metálicos da nossa voz. É importante
lembrar que todo o aparelho respiratório serve como ressonância
para os sons, e para manter uma voz sempre brilhante e jovem deve-se buscar
as ressonâncias da face.
ARTICULAÇÃO - Para aproveitar da melhor maneira possível
as áreas de ressonância (principalmente da face), devemos trabalhar
a articulação dos sons. A musculatura da face combinada com
o movimento dos lábios e maxilar ajudará a projetar o som
para fora, dando mais volume e precisão na dicção das
palavras. Além dos exercícios musculares para a face, que
vão melhorar a dicção, devemos dar atenção
especial ao trato da articulação das vogais, pois este ponto
é de vital importância para a boa colocação da
voz, explorando as áreas de ressonância e não deixando
o som destimbrado e opaco.
A - É - Ó - Sons claros e abertos. Na posição
da fala não se pode cantar. Para vencer a extensão das escalas
com a emissão perfeita destas vogais, temos que ovalar a boca. Com
esta posição o som recua para o fundo da garganta e vibra
no palato mole, entrando para a ressonância alta, e projetando-se
timbrado.
Ô - Ê - I - U - Sons escuros e fechados. O movimento labial
faz com que eles se projetem para frente. Nas notas agudas o maxilar cai
deixando a boca ovalada.
Ê - I - Estas duas vogais merecem atenção pois são
horizontais, e para se projetarem usamos o sorriso, que os mantém
vibrando no mordente até o centro da voz. Para atingir notas agudas,
o sorriso permanece, porém a boca vai se ovalando em busca de um
som arredondado e bem timbrado.
EXERCÍCIOS
1) Mastigar o m... com som nasal
2) Fazer TRRR... e BRRRR.... até acabar o ar.
3) TRRR... com modulação de som e movimento de lábio
4) Mastigar o m... e soltar as vogais abertas e fechadas - Ex. m... muá
, m....muô
5) ECO : muámuámuámuá , muémuémuémué,
etc.; com todas as vogais
6) Morder uma caneta ou rolha e contar até 100 articulando bem
7) Fazer com e sem rolha:
a) BDG b) PTK c) FSCH d) GDB e) KTP f) CHSF
PERCEPÇÃO - Esta é a área mais intimamente ligada
com a afinação, pois diz respeito ao desenvolvimento do ouvido
musical. Qualquer som emitido na natureza é uma vibração,
portanto uma freqüência. Notas musicais nada mais são
do que freqüências, emitidas de maneira ordenada dentro da faixa
de percepção do ouvido humano. Se o ouvido musical não
for treinado, o ato de cantar estará seriamente comprometido. Neste
caso, vale ressaltar que percepção é basicamente sinônimo
de concentração. Nós trabalhamos com dois tipos de
memória: memória fotográfica e memória motor.
A memória fotográfica registra os fatos, enquanto a motor
simplesmente repete aquilo que registramos. Quanto mais concentrados estivermos
no fato, mais facilmente este será incorporado, e mais rapidamente
a memória motor estará atuando. Por isso é importantíssimo
que na hora de se trabalhar a memória fotográfica o objeto
de estudo seja registrado sem erros. Isto vale não só na percepção,
mas também na incorporação da respiração,
articulações e técnicas de canto, que devem ser estudadas
em períodos curtos e várias vezes ao dia, sempre com regularidade
e disciplina, para que surtam efeito. No caso da percepção,
os exercícios serão elaborados em cima dos intervalos musicais,
dentro da tessitura vocal do aluno. Os vocalizes também ajudam muito
nesse processo.
Lembre-se: ao usar um artigo cite a fonte. "...No Senhor o vosso trabalho não é vão".