John Knox sobre Liturgia e Adoração
por
Rev. Daniel Kleyn
Antes da Reforma na Escócia, a Igreja Católica Romana estava tão profundamente corrompida qualquer adoração verdadeira de Deus quase impossível. Homens e mulheres se curvavam diante de imagens. Mártires, apóstolos e virgens eram adorados. Numerosos dias santos e festas (freqüentemente pagãs na origem) estavam constantemente sendo adicionadas. A igreja na Escócia estava, portanto, numa terrível necessidade de reforma, especialmente na área da liturgia e adoração.
No tempo da necessidade da igreja, Deus levantou John Knox para liderar a Reforma Escocesa. Ele corajosamente e ousadamente enfrentou os males da Igreja de Roma. Aspirava incansavelmente limpar a igreja e a nação das corrupções da falsa adoração. Ele condenou abertamente as práticas perversas de Roma. Mostrou ao povo o que exatamente estava errado na forma de adoração de Roma, e apresentou de forma adequada, uma liturgia e adoração bíblica.
Fazendo isto, Knox aplicou à adoração um dos solas
da Reforma – sola scriptura . Somente a Escritura deve ser o guia
para a adoração. Todas as práticas e observâncias
na igreja que não têm autoridade escriturística, devem
ser abolidas. Ao apelar para o princípio do sola scriptura para a
adoração, Knox estava confirmando o que desde então
se tornou conhecido como o “Princípio Regulador da Adoração”.
Knox chegou a um claro entendimento deste princípio de adoração
durante seu exílio em Genebra. A perseguição severa
aos Protestantes na Escócia o forçou, e muitos outros, a fugir.
Embora retornando ocasionalmente a Escócia, Knox esteve em Genebra
por aproximadamente seis anos, de 1554 a 1559.
Enquanto em Genebra, Knox desfrutou de muita interação com
o reformador João Calvino. Isto lhe deu oportunidade de discutir
com Calvino não somente teologia, mas também política
da igreja. Ele aprendeu muito de Calvino e tornou-se perfeitamente inteirado
com as visões de Calvino sobre adoração.
Em Genebra, Knox também serviu como pastor de uma pequena congregação
de ingleses exilados. Através disto ele ganhou, aparentemente, experiência
prática na forma Reformada de adoração que Calvino
ensinou e estabeleceu em Genebra. E ele a aprovou . Isto é evidente
a partir de uma carta que ele escreveu de Genebra para amigos na Inglaterra,
na qual ele declarou, “...Não temo nem me envergonho de dizer
[que aqui] é a mais perfeita escola de Cristo que já houve
na terra desde os dias dos apóstolos. Em outros lugares, eu confesso
ser Cristo pregado verdadeiramente; mas os costumes e a religião
serem tão sinceramente reformada, não tenho visto todavia
em nenhum outro lugar”. [1]
Knox adotou as visões de Calvino sobre adoração, perfeitamente
convencido de que elas eram bíblicas e corretas. Ele entendeu que
o homem por si mesmo não pode decidir como Deus deve ser adorado.
Somente Deus pode determinar isto. Portanto, qualquer prática ou
cerimônia religiosa na igreja que não tenha garantia escriturística
deve ser profundamente rejeitada. Fazendo referência à Deuteronômio
4:2 e 12:8, Knox coloca isto desta forma: “Não fareis tudo
o que bem parece aos seus olhos para o Senhor teu Deus, mas o que o Senhor
teu Deus te ordenou; não acrescentareis nada; nem diminuireis dela”.
O resultado da estadia de Knox em Genebra foi que ele retornou a Escócia
decididamente em favor de fazer as coisas como Calvino as havia feito em
Genebra. Através de escritos, debates e especialmente pregações,
ele começou a implementar os princípios Reformados de liturgia
e adoração.
Knox era um pregador poderoso. “Ele colocava mais vida em seus ouvintes
a partir do púlpito em uma hora do que seiscentas trombetas”.
[2] Mesmo quando estava velho e tinha que ser assistido ao púlpito,
ele ainda se tornava tão animado que, segundo alguns, parecia como
se ele estivesse “ding the pulpit in blads” (quebrando o púlpito
em pedaços) até ele sumir de sua frente. Do púlpito,
portanto, ele sem medo condenou os erros da igreja de Roma e apresentou
o caminho bíblico da adoração.
Um exemplo disto é um sermão que ele pregou em St. Andrews
logo após o seu retorno de Genebra. A audiência de Knox consistia
de muitos homens influentes, incluindo nobres e sacerdotes. Nem todos eram
a favor da Reforma, mas isto não o dissuadiu. Ele pregou sobre a
limpeza de Jesus do templo. Durante seu sermão ele fez direta aplicação
ao papado. Ele descreveu e condenou, sem reservas, a corrupção
que o papado tinha introduzido na igreja. O sacerdócio de Roma, disse,
eram simonistas (N.T.: de simonia, compra ou venda ilícita de coisas
espirituais. ), vendedores de perdão, colecionadores de relíquias
e encantos, exorcistas e traficantes dos corpos e almas dos homens.
A adoração de Roma, de acordo com Knox, consistia de incontáveis
“invenções papais”. Era inventada por homem e,
dessa forma, grandemente desonrante e desagradável a Deus. Portanto,
“a ira e a terrível maldição de Deus é
declarada cair sobre todos aqueles que ousam tentar adicionar ou diminuir
qualquer coisa em Sua religião'. [3]
De acordo com Knox, permitir aos homens determinar o que pode e o que não
pode ser incluído na adoração, abre o caminho para
idolatria. Isto foi verdadeiro especialmente no caso da missa. Em A Vindication
of the Doctrine That the Sacrifice of the Mass Is Idolatry (Uma Vindicação
da Doutrina de que o Sacrifício da Missa é Idolatria) , Knox
declara, “Toda adoração, honra ou serviço inventada
pela mente do homem na religião de Deus, sem Seu expresso mandamento,
é idolatria. A Missa foi inventada pela mente do homem, sem qualquer
mandamento de Deus; portanto, ela é idolatria”, e “blasfema
à morte e paixão de Cristo”. [4]
Por meio da insistência de Knox sobre a adoração biblicamente
baseada e seus labores diligentes em proclamar esta verdade, Deus produziu
uma reforma na adoração na Escócia. A falsa adoração
de Roma foi abandonada, e a verdadeira adoração de Deus foi
restaurada. Os ídolos mortos de Roma foram substituídos pela
pregação vida da Palavra. E somente aqueles elementos de adoração
que a Escritura prescrevia foram admitidos, tais como oração,
a leitura e pregação das Escrituras, o cântico dos Salmos,
e a administração apropriada dos sacramentos.
Knox escreveu o Book of Common Order (Livro da Ordem Comum), freqüentemente
referido como “A Liturgia de Knox”. Este livro foi aprovado
e adotado pela Assembléia Geral em 1564 e usado na Escócia
até o diretório de Westminster para adoração
aparecido em 1645.
A liturgia de Knox foi baseada largamente naquela da congregação
Inglesa que ele pastoreou em Genebra, seguindo as mesmas regras gerais e
conteúdo. No prefácio deste livro ele declara: “Nós,
portanto,...apresentamos a vocês, que desejam o aumento da Glória
de Deus, e a Simplicidade pura de Sua Palavra, uma Forma e Ordem de uma
Igreja Reformada, limitada dentro do Compasso da Palavra de Deus, que nosso
Salvador nos deixou como única e suficiente para o governo de todas
as nossas ações por ela”.
Com respeito aos sacramentos, Knox mostrou que somente aqueles sacramentos
que foram instituídos por Cristo são válidos. “Para
que os Sacramentos sejam corretamente administrados, julgamos duas coisas
serem indispensáveis: A primeira, que sejam administrados por Ministros
fiéis, os quais afirmamos serem somente eles que foram designados
para a pregação da Palavra...A outra, que sejam administrados
em tais elementos, e de tais maneiras, como Deus estabeleceu; de outra forma,
afirmamos, que eles cessam de ser os Sacramentos corretos de Cristo Jesus”.
[5]
Concernente a leitura da Escritura na adoração, Knox cria
“ser de extremo proveito que as Escrituras sejam lidas em ordem, isto,
que algum livro do Velho e do Novo Testamento seja iniciado e ordenadamente
lido até o fim”. [6] Ele aplicou isto também a pregação.
“Pulando e divagando de um lugar ao outro da Escritura, seja na leitura,
ou na pregação, julgamos não ser proveitoso para edificar
a igreja, como o seguimento contínuo de um texto”. [7] Os ministros
devem pregar a partir das Escrituras livro por livro, e capítulo
por capítulo, numa forma contínua e ordenada.
As formas de oração foram incluídas na liturgia de
Knox. Eles foram destinados para o uso durante os serviços de adoração.
Knox deixou claro, contudo, que devia haver também lugar para as
orações livres. As formas de oração eram modelos.
Ninguém estava estritamente obrigado a usá-las. Os ministros,
portanto, desfrutavam de liberdade na oração pública.
A própria adoração tornou-se uma atividade corporativa.
A Igreja Católica Romana tinha impedido as pessoas de serem envolvidas
na adoração. Agora, contudo, o latim foi substituído
pelo inglês, de forma que todos pudessem entender. As Escrituras foram
traduzidas para uma linguagem comum. Todas as igrejas tinham uma Bíblia
em inglês e a expunham regularmente para que até mesmo aqueles
que não podiam ler, pudessem se beneficiar. O evangelho era proclamado
com claridade e simplicidade. E os Salmos eram colocados em canções
familiares de forma que as próprias pessoas podiam expressar louvores
e graças a Deus.
A Confissão Escocesa de Fé expressa claramente esta opinião
de Knox com respeito à liturgia e adoração. Elaborada
em 1560 por Knox e outros cinco ministros, o Artigo 20 desta confissão
declara que “ na Igreja, em que - como casa de Deus que é -
convém que tudo seja feito com decência e ordem. Não
que pensemos que a mesma administração ou ordem de cerimônias
possa ser estabelecida para todas as épocas, tempos e lugares; pois,
como cerimônias que os homens inventaram, são apenas temporais,
e, assim, podem e devem ser mudadas quando se percebe que o seu uso fomenta
antes a superstição que a edificação da Igreja
”.
Esse artigo mostra que Knox e seus colegas Reformados na Escócia não estavam a favor de fazer uma forma particular de adoração obrigatória. As igrejas estavam livres para mudar sua liturgia. Mas elas não podiam mudá-la para seja o que for que lhes agradasse. Elas deviam ser governadas pelas Escrituras. A Palavra de Deus devia dirigi-las. Especificamente, a liturgia e a adoração eram para serem governadas pelos dois princípios apresentados em 1 Coríntios 14, a saber, que todas as coisas devem ser feitas “decentemente e com ordem” (v. 40), e que todas as coisas devem ser feitas para “ edificação” (v.26).
A igreja de hoje faria bem em levar no coração
e colocar em prática as visões bíblicas de John Knox
com respeito à liturgia e adoração. Porque novamente
hoje muitas “invenções feitas por homens” têm
se infiltrado nos serviços de adoração de muitas igrejas.
Knox corretamente apontou que isto se eleva à idolatria. Deve ser
condenado e abandonado. Somente o que Deus ordena pode ser incluído
na adoração. Que possamos sempre, pela graça de Deus,
manter e praticar a adoração bíblica.
NOTAS:
1. Charles Baird, The Presbyterian Liturgies (As Liturgias Presbiterianas),
Grand Rapids: Baker Book House, 1957, p. 97.
2. Philip Schaff, Creeds of Christendom (Credos do Cristianismo) , Grand
Rapids: Baker Book House, 1990, vol. I, p. 677.
3. John Knox, True and False Worship (Adoração Verdadeira
e Falsa), Dallas: Presbyterian Heritage Publications, 1994, p. 36.
4. Knox, True and False Worship (Adoração Verdadeira e Falsa)
, pp. 22, 23.
5. The Scotch Confession of Faith (A Confissão de Fé Escocesa)
, Article 22.
6. John Knox, The Reformation in Scotland (A Reforma na Escócia)
, Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1982, p. 253.
7. Knox, Reformation in Scotland (A Reforma na Escócia).
Rev. Kleyn é pastor da Igreja Protestante Reformada de Edgerton,
Minnesota .
(Este texto foi editado por Felipe Sabino de Araújo Neto e está disponivel no Site: www.monergismo.com)
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