ALFABETIZANDO SEM O BÁ – BÉ – BI – BÓ - BU
(Resenha)
Luiz Carlos Cagliari é Mestre em Lingüística geral pela Unicamp, Doutor pelo Departamento de Lingüística da Universidade de Edimburgo, é professor titular de fonética e fonologia do Departamento de Lingüística do Instituto de estudos de linguagem de Unicamp. O autor tem trabalhado na pesquisa com fonética e fonologia, sistemas de escrita e alfabetização resultando em várias publicações na área de alfabetização. Tratando esta obra da visão de um lingüista do processo de aquisição da linguagem e escrita pelo aluno. O autor inicia sua exposição mostrando que a alfabetização é tão antiga quanto os sistemas de escrita, visto que quem inventou a escrita também deu a chave para a decifração. Tendo a escrita surgida da necessidade da contagem, que era feita com marcas em ossos, cajados, para contar o gado. Ser alfabetizado nessa época, portanto, era saber ler esses símbolos e escrevê-los. Tendo a escrita de maneira autônoma e independente surgido por volta de 3300 a.C., na Suméria, no Egito 3000 a.C., e China 1500 a.C. Usando o princípio acrofônico: o som inicial do nome da letra é o som que a letra representa. O gregos passaram a escrever não só as consoantes, mas também as vogais, sendo copiados pelos romanos. Na idade Média, aprendia-se mais na vida do que na escola. Quem sabia ler ensinava quem não sabia. As cartilhas e primeiras gramáticas vieram aparecer no Renascimento, tornando-se a leitura mais individual. Já as escolas infantis iniciam com Robert Owem em 1816, na Escócia; e o primeiro jardim de infância foi fundado em 1837.Começando a aparecer o método silábico. Já no Brasil a gramática mais antiga data de 1540, escrita por João de Barros. Sendo que os métodos foram variando com o decorrer dos anos. O autor mostra que como o índice de reprovação era enorme, necessitando do surgimento dos manuais para ajuda, que pouco ajuda trazem aos professores. Aparecendo assim o período preparatório, os exercícios de treino, como traçado de curvinhas, etc, mas o índice de repetência não muda. Sendo que, até hoje, a alfabetização continua sendo um pesadelo na escola, onde os professores não sabem avaliar os métodos, sendo chamados pelo autor de incompetentes. E que estes só poderão obter competência técnica se buscar conhecimentos de lingüística e dos sistemas de escrita. Cagliari afirma que nenhum método garante bons resultados sempre, obtendo-se isso somente com a competência do professor. O autor faz menção de dois métodos: um baseado no ensino e outro na aprendizagem. Sua crítica ao primeiro é que se trata de um meio de adestramento, que dá tudo pronto ao aluno, mecanicista. E o método voltado para a aprendizagem é o oposto, voltado para a reflexão, que valoriza a individualidade do aluno. Também é feita uma critica severa quanto à avaliação e promoção, mostrando que a nota tem servido apenas para passar o aluno de ano, deixando de lado a idéia de formação, mostrando que é preciso educar para a vida e não para nota. Para ele a avaliação deveria ser a análise do progresso do aluno, devendo ser algo contínuo. Logo a seguir suas críticas são acirradas contra as cartilhas que ele considera como entulho gramatical, desastre, destruidoras da iniciativa individual, formas de adestramento. Sendo necessário não só jogar fora as cartilhas, mas também mudar muita coisa errada na máquina administrativa, e ainda, que existem muitos professores mal formados. Ele destaca que o professor deve mostrar aos alunos a importância do saber ler, considerando a idade para começar a alfabetização aos 5 anos e encerra aos 12 anos. Que o melhor método é o professor quem faz através de sua experiência, baseado num conhecimento profundo da matéria que leciona. Do mesmo modo deve-se cobrar competência e responsabilidade e não métodos e modismos. Pois para decifrar a escrita a pessoa precisa de vários conhecimentos básicos como: conhecer a categorização gráfica e funcional das letras, conhecer o alfabeto, os nomes e sons das letras e muitos outros passos. E a tarefa principal do professor deve ser ensinar a ler e para isso ele precisa de preparo técnico. E um professor competente sabe avaliar os livros didáticos são úteis e quais trazem erros e omissões. O professor de fato competente sabe o que ensina, como ensina e quando ensina. Pois muitos professores ensinam pouco e cobram muito. Noutra sessão o autor trás muitas sugestões de atividades na alfabetização, que podem ser variadas, criativas, valorizando a individualidade dos alunos, sua variedade lingüística. Também é importante incentivar a produção de textos espontâneos, não só trabalhar com palavras isoladas. E ensinar o aluno a se autocorrigir. E que há varias maneiras para produção de textos, enquanto a cartilha não propõe essa produção textual, e que o mesmo deve ocorrer desde a primeira série. Cagliari coloca também que a escola precisa ser mais honesta e parar de ficar inventando hipóteses para interpretar os erros das crianças de maneira preconceituosa. Afirmando que um professor que conhece profundamente como a escrita, a fala e a leitura funcionam, saberá o que acontece quando os alunos vão ler ou escrever. O autor trás críticas severas ao método de alfabetização das cartilhas, mas ao mesmo tempo trás sua contribuição teórica e prática a todos que levam a educação a sério e querem fazer um trabalho produtivo junto aos alunos. Ao iniciar a leitura percebe-se que suas críticas são pesadas, e no decorrer de sua exposição percebemos que seu empenho e pesquisa levaram-no a trazer um trabalho sério e competente de como levar alguém a vencer as dificuldades de leitura e escrita. Sendo um trabalho que deveria ser lido por todos os professores alfabetizadores, para que repensem sua prática pedagógica; por alunos de cursos de formação de professores, para que muitas dúvidas sejam dissipadas; por diretores, coordenadores e orientadores pedagógicos, enfim por todos aqueles que sinceramente estão preocupados com o ensino e o desempenho de nossos alunos na escola, principalmente na alfabetização.
CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetizando sem o ba-bé-bi-bó-bu. 1 ed., São Paulo: Scipione, 1998.ISBN 85-262-3445-5
Mariza S. Pereira (Pedagoga)
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