Na vida dez, na escola zero...
(Resenha)
Os autores, mestrandos da UFPE, após perceberem o problema do baixo desempenho de crianças na matemática escolar e ao mesmo tempo com sucesso na matemática do dia-a-dia, desenvolveram pesquisas em conjunto com pesquisadores de várias universidades, inclusive do exterior. Usando a interação de que a psicologia e matemática andam juntas no cotidiano e o pensamento de Piaget que o desenvolvimento intelectual não deve dar-se somente na escola, as pesquisas desenvolvidas pelos autores e analisadas neste livro visam entender o uso da matemática dentro e fora do contexto escolar, suas utilidades, finalidades e dificuldades. Carraher, Carraher e Schliemann reconhecem a existência de diferenças de classes, mas que o mesmo não deve ser definitivo na explicação para o fracasso escolar. Uma vez que as crianças de baixa renda apresentam um ótimo desempenho na matemática da rua ao vender, dar o troco. Chegando a constatação que existem muitas formas de se chegar à solução de cálculos e que estas não são aproveitadas pela escola. E não somente atribuir a escola, ou a classe social a culpa do fracasso escolar. E também destacam a falha em perceber a real capacidade da criança e aproveitar seu desempenho na prática para a escola. As pesquisas com crianças mostraram que a matemática da rua é predominantemente oral e prática, enquanto que a da escola é escrita e sem significado concreto. E que essas crianças desenvolvem suas próprias estratégias altamente eficientes para resolver problemas e usando as quatro operações. Cabendo aos professores saber valorizar essa matemática oral. Os autores realizaram testes com pessoas em seu trabalho, como no caso dos marceneiros. E as pesquisas mostraram que os marceneiros mais experientes tiveram mais facilidade de resolver os problemas propostos. Chegando-se a conclusão que oferecer ao aluno oportunidades práticas de resolver problemas facilitará seu aprendizado. Outra pesquisa realizada foi entre cambistas e estudantes que haviam acabado de passar no vestibular, em relação a problemas com análise combinatória. Concluindo que quando a experiência diária é combinada com a experiência escolar os resultados são melhores. Devendo oportunizar o relacionamento de fórmulas aprendidas a experiências com significado. Em mais uma pesquisa entre mestres-de-obras e estudantes para solução de problemas envolvendo proporção. Tendo os mestres-de-obras sido favorecidos pelo uso de hipóteses para se chegar a solução dos problemas propostos. Concluindo-se assim que conceitos e habilidades matemáticas podem no trabalho, gerar estratégias eficientes de solução de problemas. Através destas pesquisas os autores mostraram que essas pessoas, crianças, profissionais, estudantes, que usam a matemática fora da escola, o fazem de forma eficaz. Se elas não aprendem na escola não é porque são privadas de inteligência. A criança não pode ser culpada de seus fracassos na escola, pois a escolaridade não impedia o bom desempenho dos trabalhadores no exercício de sua profissão. E que as mesmas contribuem para uma visão crítica sobre os estudos da inteligência, pois a mesma pode ser determinada independente da situação em que o indivíduo se encontre. Levando assim a refletir sobre o papel da psicologia na escola e banir de vez a idéia de que crianças não aprendem matemática porque não têm capacidade de raciocinar ou em decorrência de fatores adversos que ocorrem em sua vida. Foi muito prazeroso ler este livro, por se tratar de uma obra atraente, de leitura agradável e de fácil entendimento.O mesmo deveria ser lido por educadores, psicólogos, sociólogos e todos aqueles que se interessam pelo progresso da educação e do indivíduo na sociedade. Com uma linguagem acessível e uma análise clara do papel da matemática dentro e fora da escola fica o olhar crítico e desafiador de que o ser humano é capaz de aprender e desenvolver-se. Cabe ao educador ser agente nesse processo de unir teoria e prática assim contribuir para a realização não só pessoal, mas profissional, social, enfim, global daqueles que o cercam. Pois o progresso do aluno deve ser o alvo maior e a motivação do trabalho do professor. Esta obra torna-se assim um desafio a todos os envolvidos com a educação. O progresso do aluno sendo olhado de forma global, valorizando o saber individual. E a necessidade de romper com paradigmas criados com relação à escola, ao saber, e as formas de ensinar e aprender.
David CARRAHER, Terezinha CARRAHER & Analúcia SCHLIEMANN, . Na Vida Dez, Na Escola Zero. 5 ed., São Paulo: Cortez, 1991.
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