A PARTICIPAÇÃO
INDIGNA DA CEIA DO SENHOR
UM ESTUDO DE CASO EM 1 CO 11:17-34
INTRODUÇÃO
Este trabalho tem o objetivo de interpretar o significado da participação
indigna na Ceia de Corinto. O desenvolvimento da monografia segue uma
metodologia exegética, embora seja uma exigência acadêmica
da especialização em Teologia Sistemática. Existem
várias dificuldades no desenvolvimento deste trabalho. Os manuais
de dogmática, em geral, não tratam deste assunto numa abordagem
exegética. Os dogmáticos possuem uma orientação
hermenêutica confessional, quer seja reformado, luterano, ou arminiano.
Geralmente as discussões se concentram sobre a natureza da Ceia.
Entretanto, em textos de teologia bíblica encontra-se um substancioso
material acerca do assunto, acompanhado pela exegese. Propositalmente
não houve uma pesquisa em obras de teólogos católicos.
Os intérpretes não são unânimes quanto ao significado
e aplicação do conceito de indignamente. Isto depende em
parte da reconstrução histórica que se adota acerca
da Ceia. Outro fator similar é qual contexto adotar para explicar
os problemas que geraram o comportamento indigno dos cristãos coríntios?
Algumas expressões na perícope (11:27-34) não são
menos obscuras do que a palavra indignamente, como por exemplo, “será
réu do corpo e sangue do Senhor”, “sem discernir o
corpo”, “juízo para si”. Sem levar em conta a
orientação teológica de cada comentarista que gera
variadas possibilidades de conclusões. As divisões desta
monografia envolvem cinco partes. Na primeira serão feitas algumas
observações etimológicas da palavra indignamente.
Segundo será realizado uma reconstrução histórica
da Ceia em Corinto. Em terceiro lugar serão analisadas algumas
concepções acerca da participação indigna
dos coríntios na Mesa do Senhor. Quarto, será exposto a
interpretação adotada. Por último, a conclusão.
Não será discutido acerca da presença real de Cristo
na Ceia (1 Co 11:23-25). Esta não será a preocupação
desta monografia. A análise exegética se concentrará
na perícope dos versos 27-34. Os versos 17-26 serão considerados
apenas como contexto antecedente. A versão bíblica adotada
será a ARA da Sociedade Bíblica do Brasil. O uso de outra
versão será indicado pela sua abreviatura formal. O texto
grego utilizado será o The New Greek Testament - 4ª Edição
da United Bible Societies.
1. OBSERVAÇÕES ETIMOLÓGICAS
A palavra grega traduzida por indignamente (a/naciwj) é uma hapax
legomena. Em outras palavras, em todo o Novo Testamento ela somente ocorre
nesta passagem. Se Paulo quisesse exigir um caráter digno dos participantes
da Ceia em Corinto, teria empregado a palavra a/nacioj e não a/naciwj.
A diferença entre as duas é realmente pequena, apenas um
trocadilho entre as letras oj e o wj. Todavia, a palavra a/nacioj é
um adjetivo, o que qualificaria o caráter do participante. Enquanto
que a/naciwj é um advérbio que descreve o modo da ação
do participante. Por ser uma hapax legomena dificulta uma análise
comparativa da palavra pelo número de ocorrências. Entretanto,
é possível fazê-lo de seu antônimo. Pode-se
concluir que, enquanto a palavra a/ciwj é “agir de modo digno”,
a palavra a/naciwj significa “agir de modo indigno”. O articulista
E. Tiedtke observa que “nas epístolas, axios freqüentemente
tem o significado de ‘apropriado’, ‘de acordo com’.
Este uso é especialmente evidente no uso do adv. Axios nas exortações
que exigem a maneira de vida à altura do evangelho de Cristo (Fp
1:27), do Senhor (Cl 1:10; 1 Ts 2:12), ou da nossa vocação
(Ef 4:1). De modo semelhante em 1 Co 11:27, Paulo adverte contra a celebração
da Ceia do Senhor de modo indigno (anaxios). Não é tanto
uma exigência de qualidades morais nos participantes, mas, sim,
procurar um modo de vida de acordo com o evangelho, i.é, o amor
mútuo (cf. o contexto, 1 Co 11:17-34).” O advérbio
“indignamente” possui na língua portuguesa um sentido
moral que não corresponde com exatidão ao significado da
palavra grega a/naciwj. O Novo Dicionário Aurélio da Língua
Portuguesa fornece as seguintes explicações dos verbetes
correlatos: desprezível, torpe, inconveniente, impróprio.
Neste caso, somente a palavra “impróprio” aproxima-se
do significado original. Por isso, traduzir a/naciwj por indignamente,
como ocorre na Versão Revista e Atualizada, embora esteja correto,
não esclarece o seu sentido completamente. Na língua portuguesa
a palavra indigno tem a sua origem no latim, significa “algo que
não convém, indigno, que não merece, não merecedor,
injusto, vergonhoso, infamante.” Daí o entendimento popular,
de que para participar da Ceia do Senhor a pessoa necessita ser “digna”,
subentendendo as suas virtudes pessoais, ou boa conduta como mérito.
A palavra a/naciwj não sugere mérito pessoal do participante.
Esta palavra simplesmente acusa a maneira como se procedeu. Spiros Zodhiates
comenta que este verbete grego significa “indignamente, irreverente,
de uma maneira indigna (1 Co 11:27, 29), tratando a Ceia do Senhor como
se fosse um alimento comum, sem atribuir-lhe, e aos seus elementos o valor
próprio.”
2. RECONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA CEIA EM CORINTO
Paulo escreve esta epístola corrigindo várias distorções
cometidas pelos coríntios. O apóstolo reprova as divisões
(1:10-4:20). O vergonhoso e público caso de incesto de um de seus
membros (5:1-13). Disputas legais entre cristãos (6:1-11). Casos
de envolvimento com prostitutas (6:12-20). Desentendimentos quanto ao
valor do casamento (7:1-40). Participação de festividades
pagãs e comidas oferecidas a ídolos (8:1-11:1). Os três
problemas seguintes estão relacionados com as reuniões públicas
dos cristãos em Corinto. A explicação da autoridade
entre homens e mulheres na igreja (11:2-16). O segundo relata as distorções
da Ceia do Senhor (11:17-34). A terceira problemática sobre o culto
na igreja de Corinto envolve a má compreensão da distribuição
e usos dos dons (12:1-14:40). Em seguida, Paulo fornece um esclarecimento
da veracidade da ressurreição de Cristo, e a certeza da
ressurreição futura dos crentes (15:1-58). Solicita como
a igreja deve proceder para a coleta (16:1-11) e a ida de Apolo (16:12).
O problema da Ceia não era generalizado, mas era perceptível.
Não é possível sustentar que toda a igreja de Corinto
se encontrava reprovada por Paulo. Ele mesmo diz que “porque importa
que haja partidos entre vós, para que também os aprovados
se tornem conhecidos em vosso meio” (vs. 19). Os abusos da Ceia
em Corinto envolviam apenas os cristãos. Não há indícios
de que nesta perícope Paulo esteja preocupado em restringir a Ceia.
Os coríntios não estavam sendo acusados de permitir a participação
de incrédulos na Mesa do Senhor. Não eram os incrédulos
que estavam profanando a Ceia, mas as atitudes ímpias dos cristãos
coríntios. Há dois modos de reconstruir a reunião
da Ceia da igreja Corinto. O primeiro modelo sugere que a Ceia seguia
o padrão de um jantar comum. Isto pressupõe uma refeição
extraída da cultura greco-romana. Segundo este modelo a Ceia da
igreja de Corinto possuía duas fases. A primeira desenrolava-se
numa refeição comum, com o propósito de nutrição.
Logo em seguida, viria uma segunda parte, com a celebração
solene da Ceia do Senhor. Esta interpretação explica que
durante a primeira fase da refeição os crentes de Corinto
cometiam sérios abusos, tais como egoísmo, bebedeira, glutonaria
e desprezo pelos irmãos pobres. Sendo que a Ceia do Senhor que
viria em seguida já não teria importância, para os
que se atrasaram e não participaram da primeira refeição,
estando ainda com fome e gerando um descontentamento entre os cristãos
coríntios. James D.G. Dunn está correto ao discordar desta
reconstrução entende que “o problema neste caso é
que Paulo parece ter em mente só uma única refeição
comum (a Ceia do Senhor). A prática que ele reprova não
é a de uma refeição separada (precedente) da Ceia
do Senhor, mas o abuso de uma única refeição (a Ceia
do Senhor) que começava com o único pão e terminava
com o cálice ‘após a ceia’ (11,25).” A
segunda reconstrução histórica interpreta a Ceia
do Senhor como sendo uma única refeição numa reunião
com o propósito solene de celebrar a comunhão da Igreja
de Cristo. Seguindo o padrão da ceia Pascal, então, a interpretação
toma outro rumo. Primeiro, pressupõe-se que a Ceia do Senhor, em
alguma medida, possuí continuidade com a refeição
da antiga Aliança. Segundo, a Ceia era uma refeição
litúrgica (Mt 26:30), seguindo os moldes da tradição
apostólica (eu recebi do Senhor o que também vos entreguei,
vs. 23), não meramente uma reunião de confraternização.
Em terceiro lugar, Paulo usa uma palavra muito específica para
a “ceia” (dei@pnon) que se refere ao “principal alimento
recebido à noite” não se referindo a uma refeição
secundária. A Ceia do Senhor representa, entre outras concepções,
a comunhão da Igreja de Cristo (10:17). O comportamento partidário
e egoísta contradizia abertamente o sentido da cerimônia.
Tal era a distorção das reuniões dos coríntios,
que descaracterizavam a Ceia, tornando o ambiente impróprio de
celebrar a comunhão do Corpo de Cristo (vs. 20). Não se
deve admitir que as divisões dentro da igreja de Corinto ocorriam
somente por problemas sociais. James D.G. Dunn interpreta, erroneamente,
que “é particularmente evidente que a tensão era basicamente
entre cristãos ricos e cristãos pobres, isto é, entre
os que tinham comida e bebida suficiente e suas próprias casas
(11,21-22) e ‘os que nada têm’ (11,22)”. Percebe-se
que o principal problema que afetava a celebração da Ceia
da igreja de Corinto eram os partidarismos relacionados a uma má
compreensão de quem eram os seus líderes. Dentro da igreja
havia discórdia e competição, pois “cada grupo
se jactava da sabedoria superior de seu escolhido (1:10-17).” O
problema não era apenas uma luta de classes sociais. O texto refere-se
a “divisões” (vs. 18) e a “partidos” (vs.
19). Não eram apenas dois grupos em desentendimento, mas vários,
acerca de diversos assuntos (cf. 3:4, 22; 8:7, 9, 13; 9:2; 11:22).
3. CONCEPÇÕES DIVERSAS ACERCA DA “INDIGNIDADE”
A constatação do apóstolo de que os coríntios
participavam da Ceia do Senhor de maneira indigna tem trazido divergência
de interpretação quanto ao seu exato significado. Algumas
dessas interpretações serão expostas a seguir.
Thomas C. Oden prefere uma interpretação moral para indignamente.
Em vez de recorrer a palavra grega original, ou, ao contexto próximo
da passagem, ele busca uma relação com a desqualificação
moral do caráter de alguns cristãos coríntios. Citando
alguns versículos Oden concebe a seguinte ponte “aqueles
que tem um procedimento desordenado são admoestados (2 Ts 3:6-15).
Alguns ‘devem examinar a si mesmos antes de comer do pão
e beber do cálice. Pois o que come e bebe sem discernir o corpo
do Senhor, come e bebe juízo para si’ (1 Co 11:28-29). Paulo
especificamente instrui os coríntios que ele não deveriam
comer ‘com alguém que chamasse a si mesmo de irmão,
mas que era sexualmente imoral ou ganancioso, um idólatra ou um
caluniador, beberrão ou mentiroso’ (1 Co 5:11).” Entretanto,
o advérbio indignamente refere-se ao modo da ação,
não especificamente ao caráter do agente. Leon Morris sugere
que a participação digna da Ceia deve ser com fé.
Ele declara que “mas noutro sentido podemos vir dignamente, isto
é, com fé, e com a devida realização de tudo
que é pertinente a tão solene rito. Negligenciar nisto é
vir indignamente no sentido aqui censurado.” Todavia, os que participavam
da Ceia não estavam sendo reprovados por sua falta de fé.
Nem por permitirem a participação de incrédulos.
A sua reprovação era por desprezar o cerimonial da Ceia
e a comunhão dos irmãos.
O grande teólogo da antiga Princeton Charles Hodge defende que
a participação indigna significa participar com espírito
negligente e irreverente. Ele diz que “se a Ceia do Senhor é
em sua própria natureza uma proclamação da morte
de Cristo, conseqüentemente que os que participam dela como se fosse
uma comida ordinária, ou de maneira irreverente, ou com qualquer
outro propósito que o moveu a realizá-la, são culpados
do corpo e do sangue do Senhor.” Em seguida define dizendo que “comer
ou beber indignamente é, em geral, vir a mesa do Senhor com espírito
negligente e irreverente; sem intenção nem desejo de comemorar
a morte de Cristo como sacrifício por nossos pecados, e sem o propósito
de cumprir as obrigações que com ela contraímos.”
Hodge cai no erro de interpretar a participação indigna
como sendo um problema subjetivo. O comentarista F.W. Grosheide relaciona
o significado da indignidade ao errôneo uso da Ceia. Ele argumenta
que “indignamente: isto implica que uma certa dignidade, ou valor
está relacionado com o pão e o cálice. Aquele que
os utiliza sem levar em conta o seu valor, os usa de um modo indigno,
ou seja, não está de acordo com o seu valor. Um tão
indigno uso os coríntios fizeram da Comunhão quando serviram-na,
seguida duma festa do amor unida pela discórdia.” Embora
Grosheide capte o significado original da palavra indignamente, ele o
erra em sua aplicação. Defende que o erro dos coríntios
era ter a Ceia do Senhor como sendo de inferior valor, por realizá-la
após uma festa. Deve-se notar que ele pressupõe um modelo
de ceia greco-romana. A igreja de Corinto teria apenas feito uma ligeira
adaptação para celebrar a Ceia do Senhor após a refeição
principal. Como nas refeições greco-romanas, a principal
e mais importante era a primeira refeição, servida para
a nutrição, a que era servido em seguida objetivava encerrar
o jantar, mas não tinha valor nutritivo. Esta concepção
torna-se insustentável pelo fato, que não é provável
que a Igreja Primitiva tenha mudado a sua prática litúrgica
tão cedo, abandonando o modelo da ceia pascal judaica, pela ceia
greco-romana. A história aponta para a preservação
da tradição original, pelo menos nos primeiros dois séculos.
C.K. Barret interpreta que o indignamente é posicionar-se com hostilidade
aos irmãos durante a Ceia. Barret declara “o que Paulo entende
por indignamente é explicado pelos versos 21 em diante; ele pensa
das falhas morais de partidarismo e ganância que marcavam a reunião
dos coríntios.” Continua esclarecendo que “comer e
beber indignamente (no sentido indicado acima) é contradizer tanto
o propósito da auto-entrega de Cristo, e o espírito no qual
foi feito, e situar-se entre aqueles que foram responsáveis pela
crucificação, e não entre aqueles que pela fé
receberam o seu fruto.” A segunda citação possuí
uma implicação lógica que é verdadeira. Mas,
ela não se encontra de modo objetivo na passagem (11:17-34). Logo,
não é possível incluí-la como um aspecto da
indignidade que Paulo estava reprovando. John F. MacArthur Jr. sustenta
que a indignidade refere-se a uma depreciação da cerimônia.
Comenta que “vir indignamente à Comunhão é
uma simples desonra a cerimônia; é uma desonra Àquele
a quem a honra é celebrada. Tornamo-nos culpados de desonrar o
seu corpo e sangue, que representam a Sua obra e completa graça
por nós, Seu sofrimento e morte em nosso favor.” A interpretação
de MacArthur é parcial. Ao expor que os coríntios estavam
desonrando a cerimônia, omite os abusos cometidos entre os cristãos
coríntios (cf. vs. 17-22, 33-34). Simon Kistemaker prefere uma
interpretação inclusiva. Reconhece que há uma variada
gama de definições acerca do significado da maneira indigna
que a Ceia foi realizada. Simplesmente prefere assumir que talvez Paulo
tenha pretendido que o advérbio indignamente fosse interpretado
de modo mais amplo possível. É verdade que alguns dos coríntios
mostravam falta de amor, enquanto outros deixaram de distinguir entre
a festa de fraternidade e a observância da Santa Ceia. Ambos estavam
errados, e Paulo os confronta. Mas o texto tem uma mensagem para a Igreja
universal, também. Os cristãos nunca devem considerar a
celebração um mero ritual. Ao contrário, os crentes
sinceros devem aguardar com alegria a Ceia do Senhor. Os cristãos
devem confessar não serem dignos por causa do pecado, mas terem
sua posição de dignidade por causa de Cristo. Paulo não
está exigindo perfeição antes que se permita aos
crentes virem à mesa da comunhão. Ele defende um estilo
de vida governado pelas reivindicações do evangelho de Cristo,
e que tribute o mais alto louvor a Deus. É possível que
Kistemaker tenha razão. Mas, parece que a passagem trata de um
problema bem específico. Entretanto, pelo fato do apóstolo
exigir um auto-exame, e indicar a ocorrência de disciplinas distintas,
e por fim fazer uma recomendação dirigida a mutualidade
(esperai uns pelos outros, vs. 33), é mais correto pensar que a
participação indigna na Ceia também poderia ser um
problema específico.
4. O SIGNIFICADO DA PARTICIPAÇÃO INDIGNA
A igreja de Corinto estava quebrando uma tradição cristã.
No início de 1 Co 11 Paulo louva os coríntios por estarem
fielmente guardando “as tradições assim como vo-las
entreguei (vs. 2).” Porém, encontramos o contraste no verso
22 quando num triste e enfático tom Paulo declara que “certamente,
não vos louvo”. Não era apenas uma questão
de usos, ou costumes, mas uma cerimônia que celebrava a Aliança
com o próprio Senhor Jesus, e necessitava ser preservada. F.F.
Bruce explica que a Ceia foi algo que Paulo “o recebeu ‘do
Senhor’, no sentido de que toda tradição cristã
tem sua fonte no Senhor crucificado e exaltado, assim como nele, ela é
validada para sempre.” A citação de Kistemaker pode
reforçar esta idéia quando diz “Paulo revela que a
comunhão também é o ato repetido de se receber e
entregar o sacramento até que o Senhor volte (vs. 26).” A
participação indigna consiste em desprezar a mútua
comunhão que Cristo pelo seu sacrifício expiatório
une a Igreja, isto é, o Seu Corpo. Os coríntios estavam
numa reunião que deveria ter o propósito de celebrar a unidade
da Igreja do Senhor. Entretanto, usavam daquele momento para desprezar
uns aos outros. Gordon Fee observa que “tal conduta é indigna
da Mesa onde está sendo proclamada a morte de Jesus até
que ele venha.” F.F. Bruce sumariza todo o problema ao dizer que
quando eles partiam o pão que era o símbolo do corpo de
Cristo, eles relembravam seu auto-sacrifício na cruz, mas também
declaravam participar todos juntos do seu corpo coletivo. Por isso, se
eles, na prática, negavam a unidade que professavam simbolicamente
na Ceia, estavam comendo e bebendo de modo indigno, profanando, assim,
o corpo e o sangue do Senhor; se eles comiam e bebiam “sem discernir
o corpo”, estavam comendo e bebendo condenação para
si mesmos. Comer e beber “sem discernir o corpo” significa
simplesmente tomar o pão e o cálice, ao mesmo tempo que
tratavam seus irmãos cristãos sem amor, em pensamento ou
ação. Nos escritos paulinos o conceito de “estar em
Cristo” não admite uma não mútua comunhão
com os que são salvos por Ele. A ênfase na koinwnia é
perene nos escritos do apóstolo. F.F. Bruce observa que “a
contribuição diferente que Paulo faz à doutrina eucarística
está em sua ênfase na refeição como uma ocasião
de comunhão (koinonia) e em sua interpretação da
palavra pão, ‘este o meu corpo’, fazendo-a englobar
o corpo coletivo de Cristo.” Esta comunhão é apenas
um reflexo da relação que o Corpo tem com a Cabeça
(1 Co 10:16-17; Cl 1:18-20; Jo 17:20-26). A santidade da comunhão
deveria ser manifesta na Ceia da Comunhão. Herman Ridderbos comenta
que a palavra ‘indignamente’ a duras penas reproduz o sentido
da expressão; porque se deve excluir toda idéia que insinue
que por mérito pessoal, ou algum reclamo legal alguém possa
fazer-se ‘digno’. A imagem é melhor se expressa em
comer e beber de um modo inadequado, impróprio e incoerente com
o seu significado. É uma questão de respeito pelo verdadeiro
caráter do que aqui se chama o pão e o cálice do
Senhor; isto é, respeito pela santidade desta comunhão (cf.
1 Co 10:21). A participação da Ceia envolvia a responsabilidade
de avaliar o que era aquele singular momento. As pessoas envolvidas deveriam
ter consciência da seriedade daquela cerimônia. O que era
representado nos elementos. A espécie de relacionamento que ela
estabelecia tanto com Cristo, o seu anfitrião, quanto com os demais
membros participantes da Igreja do Senhor. Kistemaker comenta que “os
coríntios devem saber que não podem participar da Comunhão
com o coração cheio de desprezo nem de frivolidade. Depois
do devido auto-exame, devem se aproximar da mesa do Senhor com amor genuíno
para com seu Senhor e para com o seu próximo.” A ordenança
ao exame pessoal é o remédio contra a indignidade. Não
era para julgarem uns aos outros. Mas cada um a si mesmos sobre o modo
de como estavam se portando na Ceia. Gordon Fee sugere que provavelmente
isto não seja tanto uma ameaça quanto um chamado a uma conduta
verdadeiramente cristã na Ceia. Neste sentido exorta os coríntios
a examinarem-se. Sua conduta desmente o evangelho ao qual asseguram compromisso.
Antes de participar no banquete, devem examinar-se acerca de suas atitudes
para com o corpo, como estão tratando aos demais, sendo que o próprio
banquete é um lugar de proclamação do evangelho.
Parte da celebração apropriada da Ceia envolvia o discernir
o que significava o “corpo”(vs. 29). Algumas sugestões
tem sido dadas para interpretar o que Paulo quis realmente dizer com “discernir
o corpo”. Leon Morris afirma que se refere a “distinguir a
ceia do Senhor de outras refeições, isto é, não
considerá-la como qualquer outra refeição.”
Kistemaker segue o mesmo raciocínio dizendo que “os participantes
devem fazer uma distinção clara entre o pão que eles
comem na festa da fraternidade para o nutrimento do corpo físico
e o pão da Ceia do Senhor em benefício do corpo de crentes.”
Uma segunda opinião sugerida por alguns intérpretes seria
de que os coríntios não refletiam sobre o significado expiatório
da Ceia. Isto é, que a ceia representa a satisfação
vicária de Cristo oferecida ao Pai. Todavia, uma terceira opinião
parece merecer crédito: o conceito de que “corpo” refere-se
à comunhão da Igreja de Cristo. Algumas evidências
favorecem esta última interpretação. Primeiro, é
ilusório pensar que os versos 27 e 29 são paralelos. O verso
29 não contém no original a variante “indignamente”.
Segundo, Paulo já havia fornecido uma definição do
que ele entendia por “corpo” em 10:16-17. Neste caso o verso
27 seria uma das comuns digressões do apóstolo. Gordon Fee
observa que “o ‘significado’ desse ‘corpo’
nesta Mesa é aqueles que comem do único pão que são
eles mesmos o único corpo.” Terceiro, deve ser observado
a ênfase da palavra sinerxomai (reunir, vs. 17, 18, 33, 34). Quarto,
Paulo mantém na perícope seguinte (12:1-31) o uso do termo
“corpo” para referir-se a unidade da Igreja, e não
para o pão da Ceia. Então, “discernir o corpo”
presume uma exigência de participar da Ceia entendendo a comunhão,
uns com os outros, forjada na união com Cristo.
A declaração do apóstolo no verso 30 não se
trata de uma ameaça, mas de uma constatação. Gordon
Fee comenta que “isto não é uma exortação
nem uma advertência; é uma reflexão ad hoc sobre a
situação deles.” Os que estão em Cristo não
precisam temer o juízo condenatório (Rm 8:1). Todavia, estes
tristes efeitos dos abusos cometidos pelos cristãos coríntios
testemunhavam do seu comportamento impróprio uns com os outros
na Ceia do Senhor. Na Bíblia de Estudo de Genebra encontra-se o
seguinte comentário “visto que alguns dos crentes de Corinto
estavam celebrando a Ceia de uma maneira que destruía a unidade
que ela representa, Deus tinha imposto julgamentos contra a comunidade.
O propósito de Deus ao julgar aqueles crentes, porém, era
de impedi-los de serem ‘condenados com o mundo’ (vs.32).”
Paulo considera necessário informar aos cristãos coríntios
que o sofrimento estava relacionadas com a observância inapropriada
da Ceia do Senhor. A menção das enfermidades e morte é
no seu sentido literal. Charles Hodge afirma que “visto que não
há nada no contexto que indique que estes termos devem ser usados
no sentido figurado de enfermidades morais e decadência espiritual,
devem ser tomadas em seu sentido literal.” G.G. Findlay sugere que
“a mera coincidência de tais aflições com a
profanação da Eucaristia poderia não justificar Paulo
em fazer tal declaração; necessitaria estar consciente de
alguma revelação específica para esta conseqüência.”
Paulo não justifica a fonte da sua afirmação. Não
é possível saber se ele diagnostica a situação
dos cristãos coríntios pela informação vinda
alguém da própria igreja, ou por uma revelação
especial vinda do próprio juiz, o Senhor Jesus.
5. CONCLUSÃO
O participante deve ter uma conduta apropriada em relação
à Ceia do Senhor. Ele precisa discernir o ato da celebração.
Reconhecer que a Ceia não é uma refeição ordinária,
mas que representa a morte expiatória de Cristo. Por isso, ela
é o sinal da nova Aliança. Um estilo de vida com os demais
membros de acordo com aquilo que a Mesa do Senhor. James D.G. Dunn corretamente
expressa que “a preocupação de Paulo estava concentrada
no pão e no cálice como expressões primárias
da unidade da congregação e como meio dessa unidade quando
corretamente celebrados”. Herman Ridderbos também contribui
dizendo que “quando a igreja celebra a Ceia, ela ‘anuncia’
verbalmente numa auto-descrição o que ela significa.”
Pesa sobre o participante a responsabilidade de exercer um auto-exame
da qualidade dos seus relacionamentos com os demais participantes. A Ceia
também representa a comunhão do Corpo, isto é, da
Igreja de Cristo. James D.G. Dunn conclui que “uma Ceia do Senhor
que não era uma ceia compartilhada, que não era um participar
de um só pão e de um só cálice, não
era efetivamente a Ceia do Senhor.” Nada pode diluir a comunhão
espiritual que há entre os cristãos. Pois, nada pode separar
a Igreja de sua comunhão espiritual com Cristo. Uma vez salvos
em Cristo, os cristãos tornam-se membros do mesmo Corpo. Entretanto,
a prática da mutualidade pode ser corrompida e afetada. Se houver
uma reunião onde não há a mútua comunhão,
não há a Ceia do Senhor. Esta foi a avaliação
de Paulo “quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é
a ceia do Senhor que comeis” (11:20). Eles tornavam a sua reunião
indigna, isto é, imprópria para realmente celebrar a Ceia
do Senhor, por causa do modo como se relacionavam. James D.G. Dunn observa
que a mesa do Senhor “não podia ser um negócio particular
em que cada qual fizesse o que quisesse. A Ceia do Senhor não era
a Ceia do Senhor, se não unia a comunidade participante em mútua
responsabilidade de uns com os outros.”
A recomendação paulina “uns pelos outros” exige
não apenas a comunhão que os cristãos devem exercer
entre si, mas de torná-la manifesta pela mutualidade. Os cismas
dentro da igreja de Corinto prejudicavam a celebração da
Ceia. Em meio às disputas os seus relacionamentos deixavam de estar
em desconformidade com aquilo que eles eram em Cristo. Conseqüentemente,
a igreja de Corinto realizava uma ceia que era propriamente sua, mas não
do Senhor. Não é de se estranhar que após uma esclarecedora
observação acerca dos juízos que estavam disciplinando
a igreja, o apóstolo termine com esta conclusão “assim,
pois, irmãos meus, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos
outros” (vs. 33, grifos meus). A participação da reunião
não estava de acordo com o seu valor, assim, poderia ser considerada
indigna.
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Rev. Ewerton Barcelos Tokashiki
tokashiki@ronnet.com.br
pastor da Igreja Presbiteriana de Cerejeiras
prof. de Teologia Sistemática no STPBC- Extensão em Ji-Paraná
– RO.
Lembre-se: ao usar um artigo cite a fonte. "...No Senhor o vosso trabalho não é vão".