INSTRUÇÕES PARA CULTO FAMILIAR
por Paulo R. B. Anglada
Aprovado pela Assembléia Geral da Igreja da Escócia para Piedade e Uniformidade no Culto Individual e Familiar e Edificação Mútua ASSEMBLÉIA EM EDINBURGH 24 DE AGOSTO DE 1647 DÉCIMA SESSÃO ATO QUANTO À OBSERVÂNCIA DAS INSTRUÇÕES DA ASSEMBLÉIA GERAL PARA O CULTO INDIVIDUAL E FAMILIAR E EDIFICAÇÃO MÚTUA; E QUANTO ÀS CENSURAS PELA NEGLIGÊNCIA DO CULTO FAMILIAR.
A Assembléia Geral, após madura deliberação, aprova as seguintes Normas e Instruções para promover a piedade, e prevenir divisões e cismas; e designa ministros e presbíteros em cada congregação para tomarem especial cuidado, a fim de que estas Instruções sejam observadas e seguidas; bem como, de igual modo, os presbitérios e sínodos para que averigüem e julguem se essas Instruções estão sendo observadas em suas fronteiras; e reprovem e censurem (de acordo com a gravidade da ofensa), os que forem achados reprováveis e censuráveis a esse respeito. E, a fim de que estas Instruções não se tornem ineficazes e não proveitosas entre alguns, devido à costumeira negligência à própria substância do dever do culto familiar, a Assembléia determina e aponta ministros e presbíteros para investigarem e averiguarem, nas congregações sob seus respectivos cuidados, se há entre eles alguma família ou famílias que costumam negligenciar este necessário dever; e se for descoberta tal família, o cabeça da família deve ser primeiramente advertido em privado a corrigir sua falta; e, em caso de insistência na falta, deve ser solene e seriamente advertido pela sessão (concílio); após o que, se ele continuar negligenciando o culto familiar, deve ser, por sua obstinação em tal ofensa, suspendido e impedido de participar da ceia do Senhor, visto ser justamente considerado indigno de comungar, enquanto não se corrigir.
INSTRUÇÕES DA ASSEMBLÉIA GERAL, CONCERNENTES
AO CULTO INDIVIDUAL E FAMILIAR, E MÚTUA EDIFICAÇÃO;
PARA A PROMOÇÃO DA PIEDADE E MANUTENÇÃO DA
UNIDADE, E PARA EVITAR CISMAS E DIVISÕES
Além do culto público em congregação, misericordiosamente
estabelecido nesta terra em grande pureza, é apropriado e necessário
que o culto individual de cada pessoa à sós e o culto familiar
sejam estimulados e organizados, para que, com a reforma nacional, a profissão
e o poder da piedade, tanto pessoal como domésticos prosperem.
A Necessidade do Culto Individual
I. Primeiramente, com relação ao culto individual, é
extremamente necessário que cada um à parte, e por si mesmo,
se dê à oração e meditação. O
indizível benefício advindo disso é melhor conhecido
por aqueles que são mais exercitados nesta prática. Este
é o meio pelo qual, de modo especial, a comunhão com Deus
é nutrida, e uma correta preparação para todos os
demais deveres é alcançada. Portanto, cabe aos pastores,
entre seus diversos deveres, pressionar toda sorte de pessoas a executarem
esse dever pela manhã e à noite, e em outras oportunidades.
É também dever do cabeça de cada família zelar
no sentido de que ele mesmo, e todos os que estão sob sua autoridade,
sejam diligentes nisso diariamente.
Ordem para o Culto Familiar
II. Os deveres ordinários compreendidos no exercício da
piedade que devem ser realizados em famílias quando reunidas com
este propósito são os seguintes: Primeiro, oração
e louvores, com referência especial, tanto à condição
pública da igreja de Deus neste reino, como à presente situação
da família e de cada um dos seus membros. A seguir, leitura das
Escrituras e explicação de um modo claro, a fim de que a
compreensão dos mais simples possa ser melhor capacitada a tirar
proveito das ordenanças públicas e a entenderem melhor as
Escrituras; bem como conversas piedosas com vistas à edificação
de todos os membros na mais santa fé; assim como, admoestação
e repreensão, quando há justa razão, por parte daqueles
que estiverem em posição de autoridade na família.
Uso Apropriado das Escrituras no Culto Familiar
III. O ofício de interpretar as Escrituras Sagradas é parte
da vocação ministerial, o qual ninguém (embora de
outro modo qualificado) deveria atribuir a si mesmo em nenhum lugar, exceto
aquele que é chamado para isso por Deus e por sua igreja. Entretanto,
em cada família onde houver alguém que possa ler, as Escrituras
devem ser lidas ordinariamente para a família; e é recomendável
que depois disso confiram, e por meio de conferência (conversas),
façam bom uso do que foi lido e ouvido. Assim, se por exemplo algum
pecado for reprovado pela palavra lida, deve-se fazer uso dela no sentido
de que toda a família se torne prudente e vigilante contra o mesmo;
ou, em se tratando da menção de algum julgamento, deve-se
fazer uso do texto lido a fim de que toda a família tema, de sorte
que não recaia sobre ela julgamento semelhante ou pior; e finalmente,
se algum dever for requerido, ou algum conforto oferecido em uma promessa,
deve-se fazer uso disso para estimular a família a buscar força
em Cristo a fim de serem habilitados a cumprir o dever requerido, e a
aplicar o conforto oferecido. Tudo deve ser dirigido pelo cabeça
da família; e qualquer de seus membros pode propor uma pergunta
ou dúvida para ser solucionada.
A Responsabilidade do Marido/Pai
IV. O cabeça da família deve zelar a fim de que nenhum membro
da família deixe de participar de qualquer parte do culto familiar;
e, visto que a realização ordinária de todas as partes
do culto familiar pertence propriamente ao cabeça da família,
o ministro deve estimular os que forem preguiçosos e instruir os
que forem fracos, a fim de que se habilitem para estes exercícios.
É possível, porém, que pessoas habilitadas, aprovadas
pelo presbitério, realizem esta instrução. Nos casos
em que o chefe da família for incapacitado, outra pessoa da família,
aprovada pelo ministro e pela sessão (concílio), pode ser
empregada nesse serviço, devendo o presbitério ser notificado.
E se um ministro, pela providência divina, vier a alguma família,
ele não deve reunir apenas uma parte dela para o culto, excluindo
os demais, exceto em casos especiais que envolvam estas pessoas em particular
e quando (pela prudência cristã) os demais não devam
tomar conhecimento.
Líderes de Fora Não Permitidos
V. Não permitam que nenhum desocupado, não vocacionado,
ou pessoa sem atividade ou com o pretexto de um chamamento, realizem culto
nas famílias; visto que pessoas corrompidas, com erros ou que procuram
divisão, podem estar prontos para penetrar sorrateiramente nas
casas e cativar pessoas néscias e instáveis.
Os Que São Admitidos no Culto Familiar
VI. Um cuidado especial deve ser tomado a fim de que cada família
se reúna sozinha para o culto familiar; não requerendo,
convidando nem admitindo membros de outras famílias, a menos que
se trate de pessoas hospedadas, ou que participem da mesa da família,
ou que se encontrem com eles em alguma ocasião legítima.
VII. Por melhores que tenham sido os efeitos e frutos de encontros de
pessoas de famílias diferentes, em tempos de corrupção
e dificuldades (em cujas circunstâncias muitas coisas tornam-se
recomendáveis, embora sejam intoleráveis em circunstâncias
normais), ainda assim, quando Deus nos abençoa com a paz e pureza
do evangelho, tais reuniões de pessoas de famílias diversas
(exceto nos casos mencionados nestas Instruções) devem ser
reprovadas, por tenderem a ser um empecilho ao exercício espiritual
de cada família por si mesma, por serem prejudiciais ao ministério
público, por afastar as famílias das suas congregações,
e com o decorrer do tempo, de toda a igreja. Além disso, muitos
erros podem advir dessa prática, os quais endurecem o coração
dos homens carnais, e entristecem os piedosos.
A Família no Dia do Senhor
VIII. No dia do Senhor, após cada membro da família à
parte, e toda a família reunida haverem buscado o Senhor (em cujas
mãos está a preparação do coração
do homem), para prepará-los para o culto público e abençoar
as ordenanças públicas, o cabeça da família
deve zelar a fim de que todos os que estão sob seus cuidados estejam
presentes no culto público e se unam aos demais membros da congregação;
e, terminado o culto público, após a oração,
devem considerar o que ouviram, e gastar o restante do dia livre em estudos
e conversas familiares sobre a palavra de Deus; ou então, cada
um à parte, deve aplicar-se à leitura, meditação
e oração, a fim de que possam confirmar e aumentar sua comunhão
com Deus; de modo que os benefícios adquiridos por meio das ordenanças
públicas sejam desenvolvidos e promovidos, e eles sejam mais edificados
para a vida eterna.
Oração Familiar
IX. Todos os que podem conceber a oração, devem fazer uso
deste dom de Deus. Embora os rudes e mais fracos possam começar
com orações fixas, não devem fazê-lo de modo
a se tornarem lerdos em estimularem em si mesmos (de acordo com suas necessidades
diárias) o espírito de oração, o qual é
conferido em alguma medida a todos os filhos de Deus. Para isso, eles
devem ser mais fervorosos (sinceros) e freqüentes na oração
em secreto a Deus, pedindo que seu coração seja habilitado
a conceber, e sua língua a expressar desejos apropriados por sua
família. Enquanto isso, para o maior encorajamento dessas pessoas,
elas devem meditar e fazer uso dos seguintes assuntos em suas orações:
Confessem a Deus o quão indignos são para virem à
Sua presença, e quão despreparados estão para cultuar
Sua Majestade; e, conseqüentemente, supliquem diligentemente que
Deus lhes confira espírito de oração. Confessem seus
pecados, e os pecados da família, acusando, julgando e condenando
a si mesmos por isso, até que suas almas experimentem alguma medida
de verdadeira humilhação. Derramem suas almas diante de
Deus, em nome de Cristo, por intermédio do Espírito, suplicando
pelo perdão dos pecados, por graça para arrepender-se, para
crer e para viver sóbria, reta e piedosamente; e para servir a
Deus com alegria e prazer, andando na Sua presença. Agradeçam
a Deus por Suas muitas misericórdias para com o Seu povo, e para
com vocês mesmos, especialmente por seu amor em Cristo, e pela luz
do evangelho. Orem pedindo os benefícios particulares, espirituais
e temporais, que estejam necessitando no momento, na saúde ou na
doença, na prosperidade ou na adversidade. Intercedam pela Igreja
de Cristo em geral, por todas as igrejas reformadas, e por sua igreja
em particular, e por todos os que estão sofrendo pelo nome de Cristo;
por todas as nossas autoridades superiores, pelo rei, pela rainha e seus
filhos; pelos magistrados, ministros, e por todo o corpo da congregação
da qual são membros, bem como por seus vizinhos ausentes envolvidos
com os seus afazeres legais, bem como por todos os que estejam em casa.
A oração pode ser encerrada com a expressão de um
sincero desejo que Deus seja glorificado na vinda do reino do Seu Filho,
do cumprimento da Sua vontade, e da convicção de que vocês
são aceitos, e de que o que pediram de acordo com a Sua vontade
será feito.
A Urgência do Culto Familiar
X. Estes exercícios devem ser realizados com grande sinceridade,
sem procrastinação, colocando de lado todas as atividades
seculares ou impedimentos, a despeito da zombaria dos homens ateus e profanos,
em respeito às grandes misericórdias de Deus para com esta
terra, e às severas correções às quais Ele
anteriormente fez vir sobre nós. Com vistas ao cumprimento desses
exercícios, pessoas eminentes (e todos os presbíteros da
igreja), não apenas devem estimular-se a si mesmos e suas famílias
a serem diligentes nesse dever, mas também devem agir efetivamente,
no sentido de que em todas as outras famílias sob seus cuidados
ou influência, estes exercícios sejam conscientemente realizados.
Ocasiões Especiais para o Culto Familiar
XI. Além desses deveres familiares ordinários, mencionados
acima, deveres extraordinários, tanto de humilhação
como de agradecimento, devem ser cuidadosamente levados a efeito nas famílias,
sempre que o Senhor os requeira, por meio de ocasiões extraordinárias
privadas ou públicas.
A Necessidade de Edificação Mútua
XII. Visto que a Palavra de Deus requer que nos consideremos uns aos outros,
para nos estimularmos ao amor e às boas obras, em todas as épocas,
e especialmente nesta, quando a impiedade abunda, e os escarnecedores,
andando em suas próprias concupiscências, estranham que outros
não concorram com eles ao mesmo excesso de devassidão; cada
membro desta igreja deve estimular-se a si mesmo e uns aos outros aos
deveres de edificação mútua, pela instrução,
admoestação, repreensão, exortando uns aos outros
a manifestar a graça de Deus, renegando a impiedade e as paixões
mundanas, e vivendo sensata, justa e piedosamente neste presente século,
confortando os fracos, e orando uns pelos outros. Estes deveres devem
ser levados a efeito especialmente em ocasiões especiais oferecidas
pela providência Divina; como, por exemplo, quando ocasiões
de calamidade, adversidade ou grandes dificuldades, exigem conselho e
conforto; ou quando um ofensor precisa ser admoestado privadamente, e,
não sendo isso suficiente, a presença de mais uma ou duas
pessoas se faça necessária, de acordo com a regra de Cristo,
a fim de que pela boca de duas ou três testemunhas, toda a verdade
possa ser estabelecida.
Aconselhamento
XIII. Visto que não é dado a todos falar de modo apropriado
a pessoas que necessitam de aconselhamento, conforto ou repreensão,
faz-se necessário que tais pessoas, nessa situação,
não encontrando paz após terem feito uso de todos os meios
ordinários privados e públicos, dirijam-se ao seu pastor,
ou a outro crente experiente. Se contudo, a pessoa com dificuldade de
consciência, for de uma condição ou sexo que a discrição,
modéstia ou temor de escândalo requeira que um amigo íntimo,
sóbrio e sério esteja presente com eles em tal difícil
ocasião, é imprescindível que tal amigo se faça
presente.
Casos excepcionais
XIV. Quando pessoas de famílias diferentes forem reunidas pela
providência Divina, seja devido à vocação comum,
ou por qualquer outra circunstância necessária, visto que
devem ter sempre a presença do Senhor deles consigo aonde quer
que forem, tais pessoas devem falar com Deus, e não negligenciar
o dever da oração e da ação de graças.
Devem, contudo, ter prudência para que a oração seja
feita por aquele que, dentre o grupo, for julgado capacitado para tal.
Devem, de modo semelhante, ter prudência para que conversas corrompidas
não lhes saiam da boca, mas apenas o que for bom para a edificação,
e para ministrar graça aos ouvintes.
As Principais Razões destas Instruções
O propósito e escopo destas Instruções não
é outro senão, por um lado, nutrir e promover o poder e
a prática da piedade entre ministros e membros desta igreja, de
conformidade com suas diversas posições e vocações;
e reprimir toda impiedade e fingimento dos exercícios religiosos.
E, por outro lado, impedir que, sob o nome e pretexto de exercícios
religiosos, seja permitida qualquer reunião ou prática que
possa degenerar em erro, escândalo, divisão, desacato ou
desconsideração para com as ordenanças públicas
e ministros, ou negligência dos deveres dos chamados particulares,
ou quaisquer outros males, os quais são obras não do Espírito,
mas da carne, e são contrárias à verdade e à
paz.
Traduzido por Paulo R. B. Anglada, em 1995, a partir de The Directory for Family Worship (Greenville, South Carolina: Greenville Presbiterian Theological Seminary, 1994).
Lembre-se: ao usar um artigo cite a fonte. "...No Senhor o vosso trabalho não é vão".