Título: Ordenação
feminina: O que o Novo Testamento tem a dizer?
Redação: Rev. Augustus Nicodemus Lopes
Síntese: A questão se mulheres podem ou não ser ordenadas, como pastoras, presbíteras ou diaconisas tem ocupado o centro do debate em diversas denominações. O rev. Augustus Nicodemus Lopes, pastor da IPB, trata a questão à luz no Novo Testamento.
TEXTO:
A questão se mulheres podem ser ordenadas, ou não, como
pastoras, presbíteras e diaconisas, tem ocupado o centro do debate
entre protestantes ao redor do mundo, em décadas recentes. Não
raro, o assunto tem dividido igrejas e denominações, como
por exemplo, nos Estados Unidos e na Europa. Entre os evangélicos
existem, de forma muito geral, duas posições básicas
quanto ao assunto: os igualitaristas e os diferencialistas. Os igualitaristas
afirmam que Deus originalmente criou o homem e a mulher iguais; a subordinação
feminina foi parte do castigo divino por causa da queda, com conseqüentes
reflexos sócio-culturais. Em Cristo, essa punição
(e seus reflexos) é removida; assim, com o advento do Evangelho,
as mulheres têm direitos iguais aos dos homens de ocupar cargos
de oficialato na Igreja. Os diferencialistas, por sua vez, entendem que
desde a criação — e portanto, antes da queda —
Deus estabeleceu papéis distintos para o homem e a mulher, visto
que ambos são peculiarmente diferentes. A diferença entre
eles é complementar. Ou seja, o homem e a mulher, com suas características
e funções distintas, se completam. A diferença de
funções não implica em diferença de valor
ou em inferioridade de um em relação ao outro, bem como
as conseqüentes diferenças sócio-culturais nem sempre
refletem a visão bíblica da funcionalidade distinta de cada
um. O homem foi feito como cabeça da mulher — esse princípio
implica em diferente papel funcional do homem, que é o de liderar.
Não implica que o mesmo é superior à mulher, em qualquer
sentido. Assim, os diferencialistas mantém que diferença
de papéis e igualdade ontológica (do ser) são duas
verdades perfeitamente compatíveis e bíblicas, enquanto
que os igualitaristas afirmam que diferença de papéis implica
inevitavelmente em julgamento de valor. A questão tem chegado aos
evangélicos no Brasil, embora, por enquanto, com menor intensidade,
e sem que evangélicos, de um lado ou de outro, tenham formalmente
se organizado de acordo com suas convicções neste sentido.(1)
O que nos preocupa é que a pergunta "Podem mulheres ser ordenadas
para servir como pastoras, presbíteras e diaconisas" nem sempre
tem sido respondida em termos de exegese bíblica das passagens
do Novo Testamento que estão diretamente relacionadas com o assunto.
A argumentação igualitarista, em particular, freqüentemente
emprega argumentos baseados no avanço da civilização,
na modernização dos tempos, no progresso humano, na crescente
participação da mulher em outras áreas da sociedade,
e nem sempre dá a necessária atenção aos textos
bíblicos relevantes.(2) Algumas das obras igualitaristas em português
que têm procurado dar atenção a essas passagens, nem
sempre conseguem ser coerentes com seus métodos,(3) e nem sempre
estão isentas do espírito reacionário que, por vezes,
tem caracterizado os esforços exegéticos dos defensores
da ordenação feminina.(4) Por vezes, a precipitação
tem obscurecido o julgamento mesmo dos mais sóbrios exegetas igualitaristas
no Brasil.(5) Embora em nosso desejo de seguirmos a verdade de Deus devamos
levar em conta os tempos em que vivemos, bem como o que nos ensinam ciências
correlatas à teologia, como a psicologia e a sociologia, por exemplo,
ao fim, a questão só poderá ser realmente decidida
em termos da Escritura — pelo menos dentro das igrejas que se consideram
reformadas, e que aderem confessionalmente à regra dos reformadores:
sola scriptura. Meu propósito neste artigo é alistar e examinar,
mesmo que brevemente, as passagens do Novo Testamento que não podem
ser ignoradas no debate sobre ordenação de mulheres ao oficialato
eclesiástico. Abordo especialmente a ordenação para
o pastorado e presbiterato. Existem aspectos da diaconia que merecem um
estudo em particular, que não será feito aqui. Ainda assim,
o material a ser tratado continua vasto. Desta feita, limitar-me-ei a
examinar passagens do Novo Testamento que estão no centro do debate
sobre a ordenação feminina, e que realmente não poderiam
ser omitidas. Meu alvo é demonstrar que, se interpretarmos estas
passagens partindo de uma hermenêutica reformada, e se deixarmos
a Escritura ter a palavra final sobre o assunto, evitaremos os extremos
dos que proíbem o que Deus não proibiu, e dos que querem
que a Igreja adote aquilo que Deus não permitiu.
I. Passagens do Novo Testamento Usadas Para Defender a Ordenação
Feminina ao Pastorado e Presbiterato
A. Romanos 16.7. Às vezes é defendido por igualitaristas
que havia mulheres na Igreja primitiva que funcionavam como apóstolos.
A passagem usada para avançar este ponto é Romanos 16.7,
onde Paulo, em sua saudação à Igreja de Roma, menciona
uma pessoa por nome Júnias: Saudai a Andrônico e a Júnias,
meus parentes e companheiros de prisão, os quais são notáveis
entre os apóstolos, e estavam em Cristo antes de mim (Rm 16.7).
Os defensores desta tese argumentam que Júnias é um nome
feminino, e que a mulher com este nome era uma "apóstola",
em pé de igualdade com Andrônico. Do ponto de vista dos defensores
da ordenação feminina, a passagem prova que Paulo reconhecia
que uma mulher pode exercer uma posição de autoridade sobre
homens na Igreja apostólica. E se elas eram admitidas ao apostolado,
obviamente o eram a cargos eclesiásticos, como presbiterato e pastorado.
Mas não é tão simples assim. Há várias
questões relacionadas com a interpretação deste texto.
A primeira questão depende da solução de um problema
textual.(6) Existem três variantes do nome Júnias nos manuscritos
gregos de Romanos 16.7. As duas primeiras divergem quanto à acentuação
da palavra Júnias no grego: (1) Iounia=n, que seria o acusativo
de Iounia=j, (Júnia) masculino; (2) Iouni/an, que seria o acusativo
de Iouni/a, (Júnia) feminino. A terceira variante é Iouli/an,
que corresponderia ao feminino Júlia. A segunda questão
depende da interpretação da expressão "notável
entre os apóstolos". Significa que Júnias era um dos
apóstolos, já antes de Paulo, e um apóstolo notável?
Ou apenas que os apóstolos, antes de Paulo, tinham Júnias
em alta conta? As questões mencionadas acima são complexas,
e sem respostas definitivas. Examinemos uma a uma.
1. Júnias é masculino ou feminino?
A variante melhor atestada, segundo o texto grego da UBS, 4a. edição
(e de Nestle-Aland, 27a. edição), é Iounia=n , acusativo
de Júnia, masculino (atestada pelos manuscritos ) A B* C D* F G
P, embora sem acentos). A variante (Júlia) é fracamente
atestada, aparecendo apenas no p46 e em algumas versões antigas.
Numa pesquisa feita por computador nos escritos gregos existentes desde
a época de Homero (século 9 A.C.) até o século
5 D.C. foram achadas apenas três ocorrências do nome Júnias,
além de Romanos 16.7. Plutarco cita uma irmã de Brutus,
chamada Júnias; Epifânio, o bispo de Salamina em Chipre,
menciona Júnias de Romanos 16.7 como sendo um homem que veio a
ocupar o bispado de Apaméia da Síria; e João Crisóstomo
se refere a Júnias de Romanos 16.7 como sendo uma irmã notável
até mesmo aos olhos dos apóstolos.(7) Os resultados são
inconclusivos. Parece evidente que Júnias era nome tanto de homem
quanto de mulher no período neo-testamentário. O problema
é que não sabemos em que gênero Paulo o usou em Romanos
16.7. Isto explica o surgimento de variantes divergindo na acentuação,
e o surgimento da variante , que é claramente uma tentativa de
resolver a ambigüidade. Se tivermos de tomar uma decisão,
devemos dar mais peso à palavra de Epifânio, pois ele sabe
mais sobre Júnias do que Crisóstomo, já que informa
que Júnias se tornou bispo de Apaméia. Concorda com isto
o testemunho de Orígenes (morto em 252 d.C.), que num comentário
em latim à carta aos Romanos se refere a Júnias no masculino.(8)
Nomes gregos masculinos terminando em -aj não são incomuns,
mesmo no Novo Testamento: André (Andre/aj, Mt 10.2), Elias (Eli/aj,
Mt 11.14) e Zacarias (Zaxari/aj, Lc 1.5).(9) Para alguns comentaristas,
Júnias é a abreviação de Junianius, um nome
masculino — mas não há evidências claras disto.
A conclusão é que não podemos saber com certeza se
Júnias era uma mulher — mais provavelmente era um homem.
É por isto que a maioria das traduções modernas,
onde possível, traduzem Júnias como masculino (e não
Júnia, feminino).(10)
2. Era Júnias um(a) apóstolo(a)?
Mais uma vez perguntamos, é possível termos uma resposta
definida para a pergunta "era Júnias um(a) apóstolo(a)?"
Gramaticalmente, a expressão "os quais são notáveis
entre os apóstolos" tanto pode indicar que Andrônico
e Júnias eram apóstolos, quanto que eram tidos em alta conta
pelos apóstolos existentes. E mesmo que aceitemos que eram apóstolos,
ainda resta o fato de que a palavra apóstolo no Novo Testamento
é usada, não somente para os Doze, para Paulo, e para algumas
pessoas associadas a ele, como Barnabé, Silas e Timóteo
(cf. At 14.14; 1 Ts 2.6), mas para mensageiros e enviados (este é
o sentido primário de de igrejas locais, como Epafrodito (Fp 2.25)
e uns irmãos mencionados em 2 Coríntios 8.23. Estes não
parecem exercer governo ou autoridade sobre as igrejas locais, eram simplesmente
enviados por elas. Portanto, se Andrônico e Júnias eram apóstolos,
deveriam pertencer a este tipo de mensageiros das igrejas locais, com
um ministério itinerante. Estes "apóstolos" não
tinham autoridade de governo em igrejas locais; antes, eram enviados por
elas para desempenhar diferentes funções como representantes
ou emissários. Em última análise, só podemos
afirmar com certeza, a partir de Romanos 16.7, que, quem quer que tenha
sido, Júnias era uma pessoa tida em alta conta por Paulo, e que
ajudou o apóstolo em seu ministério. Não se pode
afirmar com segurança que era uma mulher, nem que era uma "apóstola",
e muito menos uma como os Doze ou Paulo.(11) A passagem, portanto, não
serve como evidência bíblica para a ordenação
feminina no período apostólico. E essa conclusão
está em harmonia com o fato de que Jesus não escolheu mulheres
para serem apóstolos. Não há nenhuma referência
indisputável a uma "apóstola" no Novo Testamento.(12)
B. Gálatas 3.28
Esta passagem, aclamada pelos feministas como a "Carta Magna da Humanidade”,
(13) é, sem dúvida, a mais usada pelos defensores da ordenação
de pastoras e presbíteras: Dessarte, não pode haver judeu
nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos
vós sois um em Cristo. A abordagem igualitarista tradicional desta
passagem interpreta a expressão "porque todos vós sois
um em Cristo Jesus" como significando "porque todos vós
sois iguais em Cristo Jesus". Ou seja, interpretam o adjetivo pronominal
cardinal e no sentido de "igual". De acordo com os igualitaristas,
esta passagem mostra, então, que estão abolidas todas as
diferenças na Igreja provocadas por raça, posição
social e sexo. Com a vinda de Cristo, acabou-se a distinção
entre judeus e gentios, entre escravos e livres, e entre homens e mulheres:
todos são aceitos na Igreja, inclusive para exercer atividades,
como iguais. (14) Assim, argumentam, em Cristo voltamos ao propósito
original de Deus na criação, que foi a plena igualdade entre
o homem e a mulher. A subordinação da mulher ao homem, continua,
foi resultado posterior da queda (Gn 3.16b), e não fazia parte
da criação de Deus. Cristo veio abolir a maldição
imposta pela queda, e nele todas as dimensões da maldição
imposta à mulher quedam-se anuladas. Impedir que as mulheres exerçam
o oficialato, argumentam, seria introduzir uma distinção
na Igreja baseada em sexo, o que contraria frontalmente o ensino de Paulo
nesta passagem.
1. O contexto da passagem
Não se pode discordar de que o Evangelho é o poder de Deus
para abolir as injustiças, o preconceito, a opressão, o
racismo, a discriminação social, bem como a exploração
machista. E nem se pode discordar de que Cristo veio nos resgatar da maldição
imposta pela queda. A pergunta é se Paulo está falando da
abolição da subordinação feminina e de igualdade
de funções nesta passagem, ou seja, se está dizendo
que as mulheres podem exercer os mesmos cargos e funções
que os homens na Igreja, já que são todos aceitos sem distinção
por Deus através de Cristo, pela fé. A interpretação
igualitarista de Gálatas 3.28 esbarra em alguns problemas exegéticos.
Primeiro, o do contexto. Paulo escreveu Gálatas para responder
a questões levantadas pela doutrina da justificação
pela fé em Cristo em face às demandas da lei de Moisés,
e ao papel da circuncisão, do calendário religioso dos judeus,
e das suas leis dietárias. No capítulo 3 Paulo está
expondo o papel da lei de Moisés dentro da história da salvação,
que foi o de servir de aio, para nos conduzir a Cristo (Gl 3.23-24). Com
a vinda de Cristo, continua o apóstolo, os da fé não
mais estão subordinados à lei de Moisés: pelo batismo
pertencem a Cristo (3.25-27). A abolição das diferenças
mencionadas no versículo em questão (3.28) são em
relação à justificação pela fé.
Todos, independente da sua raça, cor, posição social
e sexo, são recebidos por Deus da mesma maneira: pela fé
em Cristo. Portanto, Gálatas 3.28 não está tratando
do desempenho de papéis na igreja e na família, mas da nossa
posição diante de Deus. O assunto de Paulo, portanto, não
são as funções que homens e mulheres desempenham
na Igreja de Cristo, mas a posição que todos os que crêem
desfrutam diante de Deus, isto é, herdeiros de Abraão e
filhos de Deus.(15)
2. Criação e Queda
Uma outra dificuldade com a interpretação igualitarista
de Gálatas 3.28 é que parece ignorar que Paulo, às
vezes, enraíza a subordinação feminina, não
na queda, mas já na própria criação, como
por exemplo, em 1 Coríntios 11.7-10 e 1 Timóteo 2.12-15.
Para não mencionar quando Paulo argumenta em favor da sujeição
da esposa a partir, não da teologia da queda, mas da teologia da
própria igreja, da relação entre Cristo e sua igreja,
como em Efésios 5.22-24.
3. O significado de "um" em Cristo
O terceiro problema é o de interpretarmos "sois um em Cristo"
como significando "sois iguais em Cristo". Numa recente tese
de mestrado, Ann Coble demonstrou de forma convincente que e( nesta passagem
não está implicando igualdade, mas simplesmente unidade.
(16) Após dar exemplos de interpretações desta passagem
na história da Igreja (pp. 7-21), ela analisa e critica a interpretação
feita pelos progressistas ou igualitários, especialmente Krister
Stendahl (pp. 22-37) e a interpretação dos diferencialistas
(pp. 38-48). Coble demonstra através de considerações
léxicas e exegéticas que Gálatas 3.28 está
abordando a questão da unidade da Igreja, e não de igualdade
de funções ou papéis. Ela argumenta que a palavra
e enfatiza unidade — não igualdade. Se Paulo quisera enfatizar
igualdade poderia ter usado palavras como ("igualdade") (pp.
49-58). Sua conclusão é que os estudiosos progressistas
ou igualitaristas não podem usar esta passagem como um texto chave
na afirmação de oportunidades de ordenação
eclesiástica idênticas para homens e mulheres.
4. O Evangelho e as "duas eras"
Uma outra dificuldade é ver nesta passagem Paulo ensinando que
a subordinação imposta à mulher como castigo (Gn
3.16b) é plenamente removida em Cristo aqui e agora. A pergunta
é se Paulo ensina nesta passagem — ou em qualquer outra do
Novo Testamento — que Cristo já aboliu na presente era, total
e plenamente, os efeitos do pecado e os castigos impostos por Deus ao
homem e à mulher, quando primeiro pecaram. O ensino de Paulo sobre
este assunto — ou mesmo qualquer outro — melhor entende-se
da perspectiva da história da redenção, especialmente
do ensino sobre as duas eras; ou seja, que em sua primeira vinda Cristo
inaugurou a era vindoura, o mundo porvir, sem abolir a era presente, como
os Judeus esperavam. A era vindoura inaugurada por Cristo se sobrepõe
à presente, e coexistem em tensão até a consumação.
No tempo presente da sobreposição das duas, quase todos
os aspectos do Reino já são antecipados de forma incipiente
(escatologia inaugurada). Os crentes já desfrutam das virtudes
do mundo vindouro, e gozam antecipadamente dos benefícios conquistados
por Cristo.
Por outro lado, Paulo reconhece que há ainda aspectos ou dimensões
da era vindoura que aguardam pleno cumprimento na parousia — é
o "ainda não" da escatologia futura. Assim, Cristo já
reina, mas nem tudo está já a ele sujeito (Hb 2.8b); já
temos a vida eterna, e já fomos ressuscitados com Cristo, mas ainda
não estamos livres da morte imposta por Deus a Adão em Gênesis
3.17 (1 Co 15.20-28). A nova criação (cf. kti/sij, 2 Co
5.17) já foi inaugurada, mas ainda não vemos a presente
criação liberta do cativeiro da corrupção
(Rm 8.8-25); Satanás já foi derrotado, conforme prometido
em Gênesis 3.15, mas ainda será destruído (Rm 16.20).
Os crentes já entraram no descanso de Deus (Hb 4.1-13), mas ainda
não estão isentos do trabalho árduo ao qual a humanidade
foi submetida após a Queda (Gn 3.17-19). As mulheres cristãs
ainda não estão livres dos sofrimentos do parto, por estarem
em Cristo, e nem igualmente deveriam esperar isenção da
subordinação imposta na queda, por serem crentes. A plena
redenção destas coisas, e das demais que ainda afligem os
cristãos, homens e mulheres, ocorrerão plenamente na parousia,
quando o Senhor Jesus trouxer em plenitude o Reino de Deus. Afirmar a
abolição evangélica da subordinação
feminina, enquanto as demais dimensões do castigo divino claramente
estão em vigor, é exegese preconceituosa. Os homens bem
que poderiam reivindicar a abolição do castigo de trabalhar
duro para poder viver! E as mulheres bem que poderiam reivindicar, já,
a abolição das dores de parto! Portanto, não se pode
usar Gálatas 3.28 como lema do igualitarismo sem que se faça
violência ao seu contexto original, sem que se ignore a teologia
paulina das duas eras e da criação do homem e da mulher.
C. Atos 2.16-18
Esta passagem é parte do sermão de Pedro, no dia de Pentecostes,
quando ele cita o profeta Joel para explicar o que acabara de acontecer
consigo, e com os demais discípulos de Jesus em Jerusalém,
quando o Espírito Santo veio sobre eles (At 2.1-4). Citando Joel,
Pedro diz: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor,
que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos
e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões,
e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre
as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão
(At 2.17-18 - minha ênfase). Os igualitaristas observam que a profecia
de Joel citada por Pedro inclui as filhas e as servas, tanto quanto os
filhos e servos, na recepção do dom do Espírito Santo.
E argumentam que não pode haver qualquer distinção
quanto ao serviço a Deus baseada em sexo, já que as mulheres
receberam o mesmo Espírito (e certamente, os mesmos dons) que os
homens, o qual foi dado para capacitar a Igreja ao serviço. A argumentação
prossegue mostrando que na igreja apostólica as mulheres oravam,
profetizavam (cf. At 21.9, as quatro filhas de Felipe que eram profetizas),
falavam em línguas, serviam (Rm 16.1, Febe), evangelizavam, tanto
quanto os homens. Algumas tinham igrejas reunidas em suas casas (At 12.12).
Priscila, por exemplo, chegou a ensinar a Apolo o caminho de Deus com
mais exatidão (At 18.26). Pentecostes argumentam, é a abolição
das distinções de gênero na Igreja, pois ao dar às
mulheres o mesmo Espírito que aos homens, Deus mostrou que elas
devem ser admitidas aos mesmos níveis de serviço que eles.
Mas não é tão simples como parece. Se as mulheres
exerceram os mesmos ministérios que os homens no período
da Igreja apostólica, por que não há nenhuma menção
no Novo Testamento de apóstolas, presbíteras, pastoras ou
bispas? Por que não há qualquer recomendação
de Paulo quanto à ordenação de mulheres, quando instrui
Timóteo e Tito quanto à ordenação de presbíteros?
Basta uma leitura superficial das qualificações exigidas
por Paulo em 1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9 para se ter a impressão
de que o apóstolo tinha em mente a ordenação de homens:
o oficial deve ser marido de uma só esposa, deve governar bem a
sua casa e seus filhos (função do homem, nos escritos de
Paulo, cf. Efésios 5.22-24).
1. Dons miraculosos e oficialato
Mas a pergunta chave é se a passagem de Atos 2.17-18 é uma
autorização para que se recebam mulheres como oficiais da
Igreja. Existem algumas dificuldades em se interpretar a passagem desta
forma. Em primeiro lugar, os fenômenos associados por Joel e Pedro
ao derramamento do Espírito nos últimos dias, como profecia,
sonhos e visões, e que são ditos que seriam concedidos às
mulheres, não estão ligados no Novo Testamento ao presbiterato
ou pastorado, e, portanto, poderiam ocorrer sem que as pessoas envolvidas
(homens ou mulheres) fossem ordenadas. Havia profetizas na igreja apostólica,
como as quatro filhas de Filipe (At 21.9; cf. 1 Co 11.5), mas não
lemos que eram presbíteras ou pastoras. Embora não tenhamos
notícia no Novo Testamento de mulheres tendo visões ou sonhos
em decorrência do derramamento do Espírito (e nem de homens,
diga-se também), não é impossível que haja
acontecido; mas, neste caso, com certeza, não estava restrito a
pastores e presbíteros. Meu ponto é que as manifestações
carismáticas mencionadas em Atos 2.17-18 (profecia, sonhos, visões)
e estendidas às filhas e servas (mulheres crentes) não exigem
a ordenação ao ministério ou presbiterato daqueles
que as recebem.
2. A base do oficialato no Novo Testamento
Uma outra dificuldade é o conceito que está por detrás
da interpretação igualitarista desta passagem, ou seja,
que a recepção de todos os dons do Espírito (especialmente
os dons relacionados com o ensino) por parte das mulheres implica que
elas deverão ser reconhecidas e ordenadas pelas igrejas como tais.
Insistem os igualitaristas que, já que o Espírito as capacitou,
a Igreja não lhes deveria negar reconhecimento oficial através
da ordenação. A grande dificuldade é demonstrar biblicamente
que na igreja apostólica este ponto foi reconhecido. Como explicar,
por exemplo, que embora Paulo reconhecesse que as mulheres poderiam profetizar
durante os cultos, tanto quanto os homens, entretanto, impõe-lhes
uma participação diferenciada destes no ato de profetizar?
Se o dom profético daria às mulheres igualdade com os homens
nas funções litúrgicas, por que lhes exigir que orem
e profetizem com a cabeça coberta, expressão cultural de
que estavam debaixo de autoridade? (1 Co 11.3-15). Além do mais,
não está claro que no Novo Testamento o acesso ao oficialato
era baseado exclusivamente na posse dos dons espirituais, ou que pessoas
dotadas espiritualmente eram necessariamente ordenadas. Não nos
parece ser este sempre o caso. Embora a aptidão para ensinar (dom
de ensino/mestre? Cf. Rm 12.7; Ef 4.11) e capacidade de governar (1 Tm
3.4-5; dom de governo? Rm 12.8) sejam requisitos claros nas duas únicas
listas que temos no Novo Testamento das qualificações dos
presbíteros e pastores (cf. 1 Tm 3.2; Tt 1.9), não há
evidências no Novo Testamento de que todos que tinham estas capacidades
(ou dons) tivessem de ser, necessariamente, ordenados. A interpretação
igualitarista das três passagens examinadas acima não é
convincente. Embora estas passagens mostrem que as mulheres tiveram papel
importante no nascimento e desenvolvimento da Igreja cristã, não
mostram que elas tiveram de ser ordenadas para isto. Demonstram que as
mulheres cristãs, juntamente com os homens, participam da graça
de Deus, e dos dons do Espírito, sem restrições.
Entretanto, nada têm a dizer sobre ordenação ao ministério
ou ao presbiterato.
II. Passagens do Novo Testamento Que Impõem Restrições
ao Ministério Feminino
Examinemos, em seguida, outras passagens do Novo Testamento igualmente
relevantes para a discussão, e que impõem restrições
ao ministério feminino nas igrejas locais. Essas passagens não
podem ser deixadas de fora de qualquer tratamento sério do assunto.
É verdade que nenhuma delas diz explicitamente que mulheres não
podem ser ordenadas como presbíteras, pastoras, ou bispas. Entretanto,
todas elas impõem restrições ao ministério
feminino, e exigem que as mulheres cristãs estejam submissas à
liderança masculina. Essas restrições têm a
ver primariamente com o ensino por parte de mulheres nas igrejas. Já
que o governo das igrejas e o ensino público oficial nas mesmas
são funções de presbíteros e pastores (cf.
1 Tm 3.2,4-5; 5.17; Tt 1.9) infere-se que tais funções não
fazem parte do chamado cristão das mulheres.
A. 1 Coríntios 11.3-16
Escrevendo ao crentes de Corinto acerca de questões relacionadas
com o culto público, Paulo aborda o problema causado por algumas
mulheres que estavam orando, profetizando (e provavelmente falando em
línguas) com a cabeça descoberta, isto é, sem o véu,
contrariando assim o costume das igrejas cristãs primitivas (1
Co 11.16). A passagem é extremamente difícil de interpretar,
e depende dos detalhes de um contexto histórico que não
pode ser totalmente recuperado. Entretanto, os pontos principais do apóstolo
na passagem são suficientemente evidentes.
1. Profetizando e orando com o véu
Ao que tudo indica, as mulheres de Corinto haviam entendido que o Evangelho
havia abolido, não somente as diferenças raciais, como também
qualquer diferença de função na Igreja entre homens
e mulheres crentes. Possivelmente, estavam interpretando o ensino de Paulo
acerca da igualdade do homem e da mulher na salvação, como
tendo conseqüências imediatas quanto ao culto e ao serviço
cristãos. Assim, estavam querendo abolir dos cultos públicos
o uso do véu, que na cultura da época era a expressão
externa do conceito da subordinação da mulher ao homem.
Aparentemente, algumas estavam reivindicando "direitos iguais"
com um espírito contencioso (1 Co 11.16). Paulo não lhes
nega o direito de participar do culto, mas insiste que elas devem fazê-lo
trajando o véu, expressão cultural do princípio permanente
da subordinação feminina. Não usá-lo significava
desonra, indecência, vergonha (11.5,6, 14). O ensino de Paulo em
1 Coríntios 11 é que as mulheres devem participar do culto
preservando o sinal de que estão debaixo da autoridade eclesiástica
masculina.
2. O véu como símbolo de submissão à autoridade
No verso 10 Paulo se refere ao véu como sinal de autoridade (1
Co 11.10). O texto grego original diz literalmente que "a mulher
deve trazer autoridade sobre a cabeça" . A interpretação
da maioria dos estudiosos é que e)cousi/an ("autoridade")
se refere ao véu, e que o mesmo simbolizava que a mulher estava
debaixo da autoridade do homem. Tanto assim, que um grande número
de versões inglesas traduzem e)cousi/an como "véu"
ou como "símbolo de autoridade" (NASB, NRSV, NIV, NCV,
NKJV, NAS, etc; ainda a versão Colombe, francesa, e Reina de Valera,
espanhola, e a NVI, em português). Outras versões são
mais explícitas ainda, e traduzem "símbolo da autoridade
do homem" (como a TEV e a LB).(17) Um paralelo bíblico é
o de Gênesis 24.65, quando Rebeca, ao tomar conhecimento de que
seria apresentada ao seu futuro marido e senhor, Isaque, tomou o véu
e cobriu-se. Em outras palavras, embora Paulo permita que a mulher profetize
e ore no culto público, ele requer dela que se apresente de forma
a deixar claro que está debaixo de autoridade, no próprio
ato de profetizar ou orar. Para Paulo, a expressão externa da subordinação
da mulher ao seu cabeça (o homem) durante o culto público
seria o uso do véu, já que o mesmo, na cultura oriental
da época (e mesmo em algumas culturas hoje) expressaria convenientemente
este conceito.
3. Cabeça: autoridade sem superioridade
A argumentação de Paulo para fundamentar sua orientação
vem de duas direções. Primeiro, Paulo argumenta teologicamente,
a partir da subordinação de Deus Filho a Deus Pai. O Pai
é o cabeça de Cristo, que por sua vez, é o cabeça
do homem, e o homem o cabeça da mulher: Quero, entretanto, que
saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça
da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo. Todo homem que ora ou profetiza,
tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça.
Toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça sem véu, desonra
sua própria cabeça, porque é como se a tivesse rapada
(1 Co 11.3-5 - minha ênfase). Tomando-se kefalh ("cabeça")
em seu sentido mais natural, de "autoridade", o que temos é
uma declaração de Paulo de que Deus tem autoridade sobre
Cristo, Cristo tem autoridade sobre o homem, e o homem tem autoridade
sobre a mulher. Uma cadeia hierárquica que começa na Trindade
e continua na igreja e na família. Podemos inferir (guardadas as
devidas proporções) que, da mesma forma como a subordinação
de Cristo ao Pai não o torna inferior — como afirma a fé
reformada em sua doutrina da Trindade — a subordinação
da mulher ao homem não a torna inferior. Assim como Pai e Filho,
que são iguais em poder, honra e glória, desempenham papéis
diferentes na economia da salvação (o Filho submete-se ao
Pai), homem e mulher se complementam no exercício de diferentes
funções, sem que nisto haja qualquer desvalorização
ou inferiorização da mulher. Em várias ocasiões
o Novo Testamento determina que os crentes se sujeitem às autoridades
civis (Rm 13.1-5; 1 Pe 2.13-17). Em nenhum momento, entretanto, este mandamento
implica que os crentes são inferiores ou têm menos valor
que os governantes. Igualmente, os filhos não são inferiores
aos seus pais, simplesmente porque devem submeter-se à liderança
deles (Ef 6.1). O conceito de subordinação de uns a outros
tem a ver apenas com a maneira pela qual Deus estruturou e ordenou a sociedade,
a família e a igreja.(18)
4. Implicações da criação
O segundo argumento de Paulo vem das Escrituras, mais especificamente
do relato da criação em Gênesis 2. Para provar que
a mulher é a glória do homem (e, portanto a ele subordinada),
Paulo escreve: Porque o homem não foi feito da mulher, e sim a
mulher, do homem [Gn 2.21-23]. Porque também o homem não
foi criado por causa da mulher, e sim a mulher, por causa do homem [Gn
2.18] (1 Co 11.8-9). Paulo vê nos detalhes da criação
uma ordenação divina quanto aos diferentes papéis
do homem e da mulher. Não somente a mulher foi criada do homem,
como por causa dele. Para o apóstolo, Deus revelou pela forma como
criou a mulher o seu propósito de que o homem fosse seu cabeça.
E a intenção divina deveria ser refletida no culto público.
Ou seja, a mulher deveria participar de forma condizente com sua condição
de subordinação. A implicação de 1 Coríntios
11 para o debate da ordenação feminina é clara. Se
a mulher está debaixo da autoridade eclesiástica exercida
pelo homem ao participar do culto, não pode exercê-la sobre
ele. Ser ordenada como presbítera ou pastora implicaria que ela
poderia ensinar aos homens com a autoridade que o ofício empresta,
e participar do governo da igreja, exercendo autoridade sobre os homens
crentes, o que contraria frontalmente o princípio ensinado por
Paulo na passagem. Há pontos difíceis de interpretar em
1 Coríntios 11, como por exemplo, a menção de "anjos"
no verso 10, e a referência à "natureza" no verso
14. Entretanto, nenhuma destas dificuldades é fatal para a compreensão
do ponto central de Paulo na passagem, que é a limitação
baseada em gênero que ele coloca sobre a participação
da mulher no culto.
5. O ensino de Paulo se aplica hoje?
Evidentemente, os igualitaristas têm procurado se livrar das implicações
desta passagem, e tentado alternativas quanto à sua interpretação.
Na verdade, alguns simplesmente se recusam a trazer a passagem para o
debate alegando que o problema que levou Paulo a dizer o que disse foi
causado pela cultura da época, e pelas circunstâncias da
cidade de Corinto. Outros ainda insistem que Paulo estava influenciado
pela cultura patriarcal da sua época, que suas palavras são
condicionadas culturalmente, e, portanto, inadequadas para as culturas
e sociedades pós-modernas do fim do século XX. Existem algumas
deficiências com estas tentativas. Primeira, não fazem a
distinção entre o princípio teológico supra
cultural e a expressão cultural deste princípio. Enquanto
que o uso do véu é claramente um costume cultural, ao mesmo
tempo expressa um princípio que não está condicionado
a nenhuma cultura em particular, que é o da diferença fundamental
entre o homem e a mulher. O que Paulo está defendendo é
a vigência desta diferença no culto público —
o véu é apenas a forma pela qual isto ocorreria normalmente
em cidades gregas do século I. Segunda, Paulo defende a participação
diferenciada da mulher no culto usando argumentos permanentes, que transcendem
cultura, tempo e sociedade, como a distribuição ou economia
da Trindade (1 Co 11.3) e o modo pelo qual Deus criou o homem (1 Co 11.8-9).
Acresce ainda que Paulo defende o uso do véu em Corinto apelando
para o costume das igrejas cristãs em geral (1 Co 11.16), o que
indica que o uso do véu não era prática restrita
apenas à igreja de Corinto, mas de todas as igrejas cristãs
espalhadas pelo mundo grego.
6. Autoridade ou fonte?
Um ataque desfechado contra a passagem é que a palavra kefalh/
no verso 3 não significa "cabeça" e sim "fonte"
ou "origem".(19) Segundo esta interpretação, Paulo
estaria dizendo, não que Deus tem autoridade sobre Cristo, e o
homem sobre a mulher, mas que Deus é a fonte da qual Cristo procede,
e que o homem é a fonte da qual a mulher procedeu. Assim, a idéia
de "autoridade" é removida da passagem, ou pelo menos
domesticada. Entretanto, há vários fatos que militam contra
a probabilidade de esta interpretação ser a correta: 1)
Estudos exaustivos feitos na literatura grega antiga demonstram que kefalh/,
na esmagadora maioria de suas ocorrências, significa "cabeça"
e não "fonte". Embora em alguns casos kefalh/ possa ter
esta tradução, em nenhum deles é absolutamente certo
de que "fonte" ou "origem" é o sentido pretendido
pelo autor.(20) 2) Na passagem paralela de Efésios 5.22-23 kefalh
claramente significa "cabeça" no sentido de "ter
autoridade sobre". O mesmo encontramos em Efésios 1.22.(21)
7. O subordinacionismo é herético?
Um outro ataque desfechado pelos igualitaristas é contra o conceito
de subordinação na doutrina da Trindade, já que Paulo
fundamenta a subordinação da mulher à liderança
masculina na subordinação de Cristo a Deus Pai (1 Co 11.3).
Alguns feministas evangélicos insistem que a doutrina da subordinação
na Trindade implica em inferioridade do Filho em relação
ao Pai, e que, portanto, é herética. Alguns chegam mesmo
a afirmar que o subordinacionismo foi uma heresia rejeitada pela Igreja
no século IV.(22) Mais recentemente, alguns feministas evangélicos
têm negado a subordinação do Filho ao Pai.(23)
Estas posições tem sido rejeitadas por estudiosos evangélicos
como enganosas. Em seu estudo sobre 1 Coríntios 11, T. Schreiner
demonstra como o credo Niceno afirmou a subordinação de
funções do Filho ao Pai, e do Espírito ao Pai e ao
Filho, sem comprometer a igualdade e a dignidade pessoal entre as pessoas
da Trindade. O que a Igreja rejeitou como heresia foi uma forma de subordinacionismo
que predicava uma inferioridade de essência entre o Pai, o Filho
e o Espírito.(24)
1 Coríntios 11.2-16, portanto, traz implicações quanto
ao ministério feminino ordenado que não devem ser ignoradas
por aqueles que defendem a ordenação de mulheres a funções
eclesiásticas de autoridade e liderança sobre homens. No
nosso entender, nenhuma das tentativas dos igualitaristas tem obtido sucesso
na domesticação destas implicações.
B. 1 Coríntios 14.33b-38
Esta é uma outra passagem da pena do apóstolo que é
de relevância para o debate sobre o ministério feminino ordenado,
pois nela Paulo impõe algum tipo de restrição à
fala das mulheres na Igreja: Como em todas as igrejas dos santos, conservem-se
as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido
falar; mas estejam submissas como também a lei o determina. Se,
porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em casa, a seu
próprio marido; porque para a mulher é vergonhoso falar
na igreja (1 Co 14.33b-35).
1. O problema textual
Existe um problema textual que temos de enfrentar, antes de podermos trazer
esta passagem para o debate. Embora os versos 34-35 apareçam em
todos os manuscritos existentes de 1 Coríntios 14, contudo, nas
testemunhas ocidentais (manuscritos e versões), aparecem após
o verso 40, ao fim do capítulo. A maioria dos estudiosos admite
a complicação textual envolvendo estes versos, mas também
reconhece que a passagem deve ser original, visto que não é
omitida em nenhum dos manuscritos que temos. O conhecido estudioso Gordon
Fee tem dado alguma credibilidade à tese de que estes versos não
foram escritos por Paulo, mas são interpolação posterior
de um escriba.(25) Entretanto, a tese de Fee não tem sido aceita
pela maioria dos estudiosos, e tem sido respondida à altura por
eruditos como D. A. Carson.(26) Prevalece o consenso de que, apesar das
dificuldades textuais, os versos 34-35 foram escritos por Paulo após
o verso 33, como atestam os melhores manuscritos.(27)
2. O que Paulo quer dizer por "falar"? A questão central
relacionada com a passagem é que tipo de restrição
Paulo está impondo às mulheres. Essa restrição
não parece ser absoluta, a ponto de reduzir as mulheres ao silêncio
total nos cultos, já que ele, em 1 Coríntios 11.5, deixa
a entender que elas poderiam orar e profetizar durante as reuniões,
desde que se apresentassem de forma própria, refletindo que estavam
debaixo da autoridade masculina.(28) A dificuldade é que "falar"
é um termo bem genérico ( lale/w), e Paulo não coloca
qualquer qualificação ao mesmo. Para alguns, Paulo está
proibindo que as mulheres falem em línguas; outros, que elas conversem
em voz alta durante os cultos. Mas estas proibições se poderiam
estender também aos homens — por que não? No entanto,
transparece que a proibição de Paulo leva em conta o gênero.
Ainda outros pensam que a proibição refere-se apenas às
mulheres casadas. Nenhuma destas interpretações é
realmente convincente; todas elas têm sido refutadas habilmente
por estudiosos.(29) No meu entender, a interpretação que
traz menos problemas é a que defende que Paulo tem em mente um
tipo de "fala" pelas mulheres nas igrejas que implique em uma
posição de autoridade eclesiástica sobre os homens
crentes. Elas podiam falar nos cultos, mas não de forma a parecer
insubmissas, cf. v.34b. No contexto imediato Paulo fala do julgamento
dos profetas no culto (v. 29), o que envolveria certamente questionamentos,
e mesmo a correção dos profetas por parte da igreja reunida.
Paulo está possivelmente proibindo que as mulheres questionem ou
ensinem os profetas (certamente haveria homens entre eles) em público.
Se elas tivessem dúvidas quanto ao que foi dito por um ou mais
profetas, as casadas entre elas deveriam esclarecê-las em casa,
com os maridos (se fossem crentes, naturalmente), cf. v. 35.
3. O ensino de Paulo se aplica hoje?
A determinação de Paulo está de acordo com o espírito
cristão em todas as demais igrejas, 14.33b. Portanto, não
é paroquial, apenas para a situação da igreja de
Corinto. Está conforme a "lei", uma provável referência
às Escrituras, onde claramente se ensina que Deus atribuiu ao homem
e à mulher papéis diferentes na família e na igreja,
14.34b. E as igrejas de Corinto não deveriam se insurgir contra
o costume das demais igrejas e contra o ensino apostólico, 14.36-38.
Elas não eram a "igreja mãe", de onde a Palavra
de Deus havia surgido, 14.36. Seus líderes, os profetas e os "espirituais"
deveriam reconhecer a autoridade apostólica de Paulo e se submeter
ao seu ensino sobre este assunto, 14.37-38. Fica evidente que Paulo está
estabelecendo um princípio permanente para as igrejas, e não
apenas fazendo jurisprudência teológica local. A passagem
assim entendida está em consonância com 1 Coríntios
11, onde Paulo faz uma diferença entre a participação
do homem e da mulher no culto. Enquanto que ali Paulo requer delas que
se apresentem submissas à liderança masculina, aqui no capítulo
14 determina-lhes que não falem de forma a parecer que estão
na liderança. As implicações destas passagens para
o debate acerca da ordenação feminina são claras.
Elas deixam claro que Paulo não era um igualitarista.
C. 1 Timóteo 2.11-15
Em sua primeira carta a Timóteo, seu colaborador e filho na fé,
e que estava encarregado da igreja de Éfeso, Paulo faz as seguintes
determinações quanto às mulheres: A mulher aprenda
em silêncio, com toda submissão. E não permito que
a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o marido; esteja,
porém, em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão,
depois Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo
enganada, caiu em transgressão. Todavia, será preservada
através de sua missão de mãe, se elas permanecerem
em fé e amor e santificação, com bom senso (1 Tm
2.11-15 — Almeida Atualizada, 1a. edição). Esta é
provavelmente a passagem mais importante para a discussão sobre
o ministério feminino ordenado. E tem padecido muito nas mãos
dos intérpretes. A interpretação histórica
da passagem é que, aqui, o apóstolo Paulo determina que
as mulheres crentes de Éfeso aprendam a doutrina cristã
em silêncio, submetendo-se à autoridade eclesiástica
dos que ensinam — no contexto, homens (v.11). Elas, por sua vez,
não tinham permissão para ensinar os homens com esta autoridade,
nem exercê-la nas igrejas sobre eles, mas deviam submeter-se em
silêncio (v.12). A causa apresentada pelo apóstolo é
dupla: Deus primeiro formou o homem, e depois a mulher (v.13). E ela foi
iludida por Satanás e pecou (v. 14).
1. A heresia de Éfeso
Essa interpretação tem o apoio do contexto da carta. É
consenso entre os estudiosos que Paulo a escreveu para instruir Timóteo
a combater uma perigosa heresia que havia se infiltrado na igreja de Éfeso,
que estava sob a sua responsabilidade. Paulo não dá muitos
detalhes na carta sobre a natureza dessa heresia, provavelmente porque
Timóteo estava perfeitamente a par do problema. Uma reconstrução
cautelosa nos revela os seguintes pontos: 1) Os falsos mestres em Éfeso
estavam semeando dissensões e se ocupando com trivialidades (1
Tm 1.3-7; 6.4-5; cf. 2 Tm 2.14, 16-17, 23-24).2) Os falsos mestres ensinavam
que a prática ascética era um meio para se alcançar
uma espiritualidade mais elevada. Estavam ensinando a abstinência
de certas comidas, do casamento, e do sexo em geral (1 Tm 4.1-3). Possivelmente
estavam ensinando que o treinamento físico também servia
para se alcançar esta espiritualidade (1 Tm 4.8). 3) Várias
mulheres da igreja estavam seguindo os falsos mestres e seus ensinos (1
Tm 5.12,15; cf. 2 Tm 3.6-7). 4) Aparentemente, os falsos mestres estavam
encorajando tais mulheres a trocarem o seu papel costumeiro no lar por
uma atitude mais igualitária com respeito a seus maridos, e aos
homens em geral. O programa dos falsos mestres incluía denegrir
o casamento, e isso certamente induziria ao abandono das funções
tradicionais da mulher no lar. Algumas evidências sugerem esta interpretação.
Em suas instruções às viúvas, Paulo determina
que as mais novas se casem, tenham filhos e cuidem das suas casas (1 Tm
5.14), visto que já "algumas se desviaram, seguindo a Satanás"
(5.15). Desde que Paulo considera o ensino dos falsos mestres como sendo
"ensino de demônios" (4.1-2), segue-se que ir após
Satanás seria aceitar o ensino dos falsos mestres em oposição
ao que Paulo ordena em 5.14. Uma outra evidência é 1 Timóteo
2.15. Embora não saibamos com exatidão o que Paulo quer
dizer com "será salva", está claro que o apóstolo
está insistindo no papel natural da mulher como mãe, uma
insistência que se torna óbvia quando pensamos no ensino
dos falsos mestres desvalorizando o casamento. Embora não saibamos
os motivos com exatidão, transparece claramente que o ensino dos
falsos mestres em Éfeso incluía a rejeição
dos papéis tradicionais das mulheres no casamento, e um encorajamento
a que elas reivindicassem papéis iguais na igreja e nos lares.
A situação parece bastante similar à da igreja de
Corinto, onde as mulheres procuravam exercer no culto funções
até então privativas dos homens cristãos. É
contra este pano de fundo que Paulo determina às mulheres da igreja
de Éfeso que aprendam em silêncio, que não ensinem
nem exerçam autoridade sobre os homens, e que estejam em perfeita
submissão (1 Tm 2.12).(31)
2. O que Paulo quer dizer com "ensinar"?
O ensino de Paulo neste versículo torna-se mais claro quando entendido
à luz desta reconstrução. Vejamos com mais detalhes
alguns dos pontos mais decisivos de 1 Timóteo 2.12: Primeiro, Paulo
diz não permitir que a mulher ensine nas igrejas. Ensinar, no Novo
Testamento é uma atividade bem ampla. Todos os cristãos
podem ensinar, quer, por exemplo, quer pelo seu testemunho, quer em conversação.
O próprio apóstolo determina que as mulheres idosas ensinem
as mais novas a amarem seus maridos (Tt 2.3-5). Assim, fica claro que
Paulo não está passando um proibição geral.
Mas, então, o que ele está proibindo? Transparece do texto
que ele não permite que a mulher, em posição de autoridade,
ensine os homens. Nas Cartas Pastorais, ensinar sempre tem o sentido restrito
de instrução doutrinária autoritativa, feita com
o peso da autoridade oficial dos pastores e presbíteros (1 Tm 4.11;
6.2; 5.17). Ao que tudo indica, algumas mulheres da igreja de Éfeso,
insufladas pelo ensino dos falsos mestres, estavam querendo essa posição
oficial para ensinar nas assembléias cristãs. Paulo, porém,
corrige a situação determinando que elas não assumam
posição de liderança autorizada nas igrejas, para
ensinarem doutrina cristã nos cultos, onde certamente homens estariam
presentes. Paulo não está proibindo todo e qualquer tipo
de ensino feito por mulheres nas igrejas. Profetizas na igreja apostólica
certamente tinham algo a dizer aos homens durante os cultos. Para o apóstolo,
a questão é o exercício de autoridade sobre homens,
e não o ensino. O ministério didático feminino, exercido
com o múnus da autoridade que ofícios de pastor e presbítero
emprestam, seria uma violação dos princípios que
Paulo percebe na criação e na queda. O ensinar que Paulo
não permite é aquele em que a mulher assume uma posição
de autoridade eclesiástica sobre o homem. Isso é evidente
do fato que Paulo fundamenta seu ensino nas diferenças com que
homem e mulher foram criados (v. 13), e pela frase "autoridade sobre
o homem" (v. 12b). Um equivalente moderno seria a ordenação
como ministro da Palavra, para pregar a Palavra de Deus numa igreja local.(32)
3. O que Paulo quer dizer com "exercer autoridade"?
Isto nos leva ao ponto seguinte. Paulo diz também não permitir
que a mulher exerça autoridade sobre o homem. A Almeida Atualizada,
em sua 2ª edição, traduziu diferentemente esta passagem.
Em vez de preservar a leitura da 1ª edição, "exerça
autoridade sobre o homem", preferiu traduzir o genitivo a)ndro/j
como "de homem". O resultado é "não permito
que a mulher ... exerça autoridade de homem". A tradução
é gramaticalmente possível, e se encaixa no contexto geral
do ensino paulino, onde a autoridade didática e o governo nas igrejas
é função dos homens cristãos. Mas, introduz
uma expressão que é absolutamente nova e estranha ao vocabulário
de Paulo. É talvez preferível permanecer com a tradução
anterior, que também é gramaticalmente possível,
além de soar mais como Paulo. De qualquer forma, fica evidente
que a atitude que o apóstolo exigia das mulheres cristãs
de Éfeso, envenenadas pelo ensino dos falsos mestres, era de submissão
e silêncio, quanto ao aprendizado da doutrina cristã nas
assembléias. A proibição de exercer autoridade sobre
os homens exclui as mulheres do ofício de presbítero, que
é essencialmente o de governar e presidir a casa de Deus (1 Tm
3.4-5; 5.17), embora não as exclua de exercer outras atividades
nas igrejas.(33)
4. Homem e mulher, ou esposa e marido?
Uma outra questão é a tradução das palavras
gunh e anhr, que tanto podem significar "mulher" e "homem"
no sentido mais geral, quanto "esposa" e "marido".
Alguns estudiosos tem procurado limitar o alcance da proibição
de Paulo ao casamento apenas, e assim preferem a última tradução.
Para eles, Paulo está dizendo que a mulher casada não deve
ensinar ou exercer autoridade sobre o seu marido, sem generalizar quanto
aos homens em geral.(34) Mas, esta última interpretação
é improvável. O contexto e a maneira de Paulo construir
suas frases apontam na outra direção. Como observa Douglas
Moo, se Paulo desejasse se referir a maridos teria usado um artigo definido
ou um pronome possessivo antes de a)nh/r. Neste caso, a frase ficaria
assim: "Não permito que a mulher ensine, nem que exerça
autoridade sobre seu marido", como fez em Efésios 5.22; cf.
Cl 3.18. Além disto, o contexto claramente trata de homem e mulher
genericamente, cf. 1 Tm 2.8-9.(35)
5. Paulo e o "Paulinista"
Alguns ainda rejeitam 1 Timóteo 2.11-15 por ser parte de uma carta
cuja autoria e genuinidade são disputadas. A grande maioria dos
estudiosos liberais aceita como fato que as Cartas Pastorais (1 e 2 Timóteo,
e Tito) foram escritas por um admirador de Paulo, chamado por alguns estudiosos
de "Paulinista", que usou seu nome e imitou seu estilo, muito
tempo depois da sua morte. E que escreveu coisas contrárias ao
verdadeiro Paulo, tais como estas determinações reduzindo
as mulheres ao silêncio e à submissão. Alguns destes
estudiosos, como W.O. Walker, acreditam que o apóstolo Paulo era
um igualitarista, que libertou as mulheres dos preconceitos e da dominação
masculina e patriarcal vigentes (Gálatas 3.28), mas teve sua mensagem
posteriormente deturpada pelo "Paulinista", que pregava a subordinação
das mulheres no nome de Paulo (Cartas Pastorais).(36) A conclusão
deles é que não se pode estabelecer doutrinas ou princípios
práticos para as igrejas de hoje baseados em uma passagem que não
foi escrita pelo verdadeiro Paulo. Os que pensam assim rejeitam igualmente
passagens como 1 Coríntios 11.2-16 e 14.34-35, como tendo sido
escritas posteriormente pelo "Paulinista". Não temos
espaço neste artigo para expor os argumentos dos estudiosos conservadores
em favor da genuinidade das Pastorais.(37) Podemos apenas dizer que os
argumentos apresentados contra a autoria paulina não são
convincentes a ponto de abandonarmos o que a Igreja vem aceitando faz
séculos. As diferenças de estilo, o vocabulário distinto,
e as ênfases doutrinárias únicas das Pastorais podem,
e têm sido, explicadas convenientemente de outros modos, que não
negando a autoria de Paulo. Portanto, não devemos rejeitar as implicações
de 1 Timóteo 2.11-15 para o debate com base na hipótese
de estudiosos liberais quanto à autenticidade da carta.
6. A aplicabilidade da passagem para hoje
Finalmente, existem ainda objeções levantadas contra a aplicabilidade
de 1 Timóteo 2.11-15 às igrejas cristãs contemporâneas.
A maioria destas objeções se fundamenta no fato de que as
restrições impostas por Paulo às mulheres estão
condicionadas pelo problema particular da igreja de Éfeso. Segundo
os defensores desta posição, 1 Timóteo 2.11-15 não
tem mais qualquer relevância para as mulheres de hoje, visto que
foi escrito para corrigir as mulheres que haviam sido iludidas pela heresia
de Éfeso, que já não mais existe desde o século
I. Além do mais, argumentam, não existe hoje, na maioria
das igrejas cristãs, algo que corresponda ao ensino doutrinário
autoritativo do século I. Portanto, esta passagem não se
constitui em um empecilho para a ordenação de mulheres como
pastoras e presbíteras. Estas objeções podem ser
respondidas da seguinte maneira: 1) Quase que todos os livros do Novo
Testamento foram escritos em resposta a uma situação específica
de uma ou mais comunidades cristãs do século I, e nem por
isto intérpretes igualitaristas defendem que nada do Novo Testamento
se aplica às igrejas cristãs de hoje. A carta aos Gálatas,
por exemplo, onde Paulo expõe a doutrina da justificação
pela fé somente, foi escrita para combater o legalismo dos judaizantes
que procuravam minar as igrejas gentílicas da Galácia, em
meados do século I. Ousaríamos dizer que o ensino de Paulo
sobre a justificação pela fé não tem mais
relevância para as igrejas do final do século XX, por ter
sido exposto em reação a uma heresia que afligia igrejas
locais no século I? O ponto é que existem princípios
e verdades permanentes que foram expressos para atender a questões
locais, culturais e passageiras. Passam as circunstâncias históricas,
mas o princípio teológico permanece. Assim, o comportamento
inadequado das mulheres de Corinto e de Éfeso, e as heresias que
o provocaram, cessaram historicamente, mas os princípios aplicados
por Paulo para resolver os problemas causados por estas heresias permanecem
válidos. Ou seja, o ensino de que as mulheres devem estar submissas
à liderança masculina nas igrejas e na família, sem
ocupar posições de liderança e governo, é
o princípio permanente e válido para todas as épocas
e culturas. 2) É evidente que há elementos no Novo Testamento
que pertencem à cultura do século I. Por exemplo, nenhum
estudioso sério afirmaria que a orientação de Paulo
para que os cristãos se saúdem com "ósculo santo"
(1 Co 16.20) é para ser observada literalmente nas igrejas ocidentais
contemporâneas. Entretanto, o princípio que está por
detrás desta orientação é permanente, ou seja,
que os cristãos devem se saudar de forma santa, qualquer que seja
a época ou cultura em que vivam. Obviamente, a forma em que essa
saudação ocorrerá dependerá dos costumes locais,
mas o princípio permanece o mesmo. É exatamente o que ocorre
quanto à determinação de Paulo para que as mulheres
de Corinto usem o véu. O princípio por detrás desta
ordem, conforme estudamos acima, é o de se apresentarem nos cultos
em plena submissão à liderança masculina cristã.
O uso do véu é a forma contextualizada pelo qual esse princípio
se expressava. Hoje em dia, nas culturas ocidentais, o uso do véu
não é uma expressão apropriada deste princípio.
O princípio permanente que está subjacente em 1 Coríntios
11.2-16, 14.34-35 e 1 Tm 2.11-12 é o de que se mantenham as distinções
e os papéis intrínsecos ao homem e à mulher na igreja
e na família. Assim, a mulher não deve inverter os papéis,
e ocupar posição de autoridade sobre os homens, quer seja
para governá-los ou ensiná-los. 3) O contexto de 1 Timóteo
2.11-15, finalmente, é a instrução de Paulo a Timóteo
quanto ao culto público da igreja (1 Tm 2.1-10). A intenção
de Paulo não é apenas paroquial, mas universal em sua aplicação,
visto que ele quer que os cristãos orem "por todos os homens"
(2.1), por "todos os que se acham investidos de autoridade"
(2.2), visto que Deus quer que "todos os homens sejam salvos"
(2.4). Assim, os varões devem "orar em todo lugar" (2.8).
O ensino de Paulo, portanto, tem a ver com "todos os homens... em
todo lugar".(38) Isto não quer dizer que não reconheçamos
as circunstâncias particulares da igreja de Éfeso, mas sim
que elas foram o catalisador histórico para admoestações
gerais e permanentes.
7. O caráter permanente do ensino de Paulo
Uma outra consideração é que Paulo, tanto em 1 Coríntios
11 quanto em 1 Timóteo 2, fundamenta sua orientação
quanto ao comportamento apropriado das mulheres cristãs nas igrejas,
não em considerações condicionadas culturalmente,
mas em princípios inerentes à própria humanidade.
Após proibir que as mulheres ensinem e exerçam autoridade
sobre os homens (1 Tm 2.12), Paulo dá a causa para sua proibição
nos versos 13 e 14 (note o ga/r causal introduzindo estes versículos):
1) O primeiro é baseado na forma como Deus criou o homem e a mulher,
ou seja, o homem foi criado primeiro (v. 13). A seqüência temporal
(prw=toj ... ei)=ta), para Paulo, tem significado teológico e implicações
práticas quanto ao ministério feminino na Igreja de Cristo.
O fato de que o homem foi criado primeiro indica sua liderança
sobre a mulher. E o fato de que a mulher foi criada em seguida, como auxiliadora,
indica sua posição de submissão (cf. Gênesis
2). Para o apóstolo, se uma mulher ensina (prega) doutrina com
autoridade sobre homens, está violando este princípio inerente
à criação. É importante observar que Paulo
enraíza sua proibição nas circunstâncias da
criação, e não da queda, somente. Portanto, como
observa Moo, ele não considera estas restrições sobre
as mulheres como sendo apenas resultado da queda, e, portanto, também
não espera que sejam removidas com a redenção que
há em Cristo.(39) 1 Timóteo 2.13 é um versículo
simples e direto, que intérpretes igualitaristas têm dificuldade
em explicar. Thomas Schreiner, em recente livro combatendo o igualitarismo,
alista as tentativas de feministas evangélicos de descartar 1 Timóteo
2.13: ... Mary Evans diz que a relevância do verso 13 para o verso
12 é obscura, e que o verso 13 simplesmente introduz o verso seguinte
sobre Eva. Gordon Fee afirma que o verso 13 não é central
para o argumento de Paulo. Timothy Harris diz que o verso "é
difícil de entender de qualquer ponto de vista". Craig Keener
pensa que o argumento de Paulo aqui é difícil de perscrutar.
David Scholer protesta que o texto é obscuro, e que Paulo está
fazendo uma citação seletiva de Gênesis 2. Steve Motyer
diz que lógica e justiça ficam anuladas se a interpretação
histórica deste verso for aceita.(40) 2) O segundo motivo é
fundamentado no fato de que não foi Adão, mas sim Eva, quem
foi iludida por Satanás e desobedeceu a lei de Deus (v.14). Para
alguns, Paulo está citando a maneira pela qual o primeiro casal
caiu em pecado para mostrar que a mulher é mais crédula
ao erro religioso, e mais susceptível de ser enganada por Satanás
(cf. 2 Co 11.3); portanto, não deve ocupar funções
de ensino doutrinário nas igrejas, para que não caiam em
heresia, e induzam outros. Embora possa haver alguma verdade neste pensamento,
é mais provável que Paulo esteja citando o incidente para
mostrar o que ocorreu quando Eva tomou a liderança que havia sido
dada a Adão. Uma leitura cuidadosa de Gênesis 3 mostra como
a mulher entrou em diálogo com o tentador (Gn 3.1-5), e como, assumindo
a liderança, tomou do fruto e deu-o a seu marido, levando-o ao
pecado (3.6). As palavras do Senhor Deus ao homem, "porque atendeste
a voz da tua mulher" (3.17), soam, assim, como uma repreensão
por Adão ter aceitado a liderança da sua esposa na transgressão.
E o castigo imposto por Deus à mulher, de que seria dominada pelo
homem, encaixa-se com essa dimensão do pecado da mulher (3.16).
Portanto, o que Paulo quer mostrar em 1 Timóteo 2.13, não
é que o homem não peca, ou que não pode ser enganado
por Satanás, mas sim, o que ocorre quando homem e mulher revertem
os papéis que Deus lhes determinou.(41) O apelo de Paulo às
Escrituras demonstra que, para ele, as causas dos diferentes papéis
do homem e da mulher estão enraizadas nas circunstâncias
em que a criação e a queda aconteceram, e não em
demandas provisórias das igrejas e nem em aspectos culturais da
época.
Conclusões
O meu alvo neste artigo foi demonstrar a importância de levarmos
em conta o ensino do Novo Testamento no debate acerca do ministério
feminino ordenado. A nossa análise das passagens mais usadas para
defender a ordenação de mulheres ao presbiterato ou pastorado
demonstrou que elas não dão suporte às pretensões
do programa igualitarista, embora certamente nos ensinem que devemos encorajar
e defender o ministério feminino em nossas igrejas. Por outro lado,
nossa análise das três principais passagens usadas como evidência
de que Deus não intentou que as mulheres cristãs ministrassem
nas igrejas aos homens, de uma posição de autoridade, quer
ensinando-os ou governando-os, mostrou que a interpretação
diferencialista destas passagens encaixa-se nos seus contextos, honra
à aplicabilidade dos princípios bíblicos para nossos
dias, e responde satisfatoriamente às objeções. Minha
conclusão é que não há respaldo bíblico
suficiente para que se recebam mulheres ao pastorado, presbiterato ou
bispado de igrejas cristãs locais, onde irão, como tais,
presidir, governar, e ensinar doutrina aos homens. Na realidade, as evidências
bíblicas apontam em outra direção. Estas passagens
não podem ser ignoradas pelos que almejam o ministério ordenado
de mulheres nas igrejas evangélicas do Brasil. Somente com as ferramentas
da crítica bíblica radical, que abstraem estas passagens
dos manuscritos, isolam-nas da realidade atual das igrejas, e domesticam
o poder de suas implicações, é que se pode contornar
o seu ensino óbvio. Uma palavra final. Os presbíteros exerciam
a autoridade e o governo nas igrejas, mas não eram absolutos. Poderiam
ser repreendidos, se falhassem (1 Tm 5.19-20), e deveriam exercer sua
autoridade não como dominadores, mas como exemplos (1 Pe 5.5).
Sua autoridade era limitada pelo ensino de Jesus e dos apóstolos,
que hoje se encontram nas Escrituras. Não poderiam ir de encontro
a este ensino, como hoje presbíteros, conselhos e concílios
em geral também não podem. Nenhum concílio eclesiástico,
argumentando a partir das mudanças sociais do tempo presente, tem
poderes para ir além da Escritura, ou contradizê-la, ordenando
mulheres como presbíteras, pastoras ou bispas.
__________________________
Notas
1 Nos Estados Unidos, por exemplo, existem organizações
diferencialistas formadas por evangélicos, como o Council on Biblical
Manhood and Womanhood, liderado pelo conhecido Wayne Grudem.
2 Cf. o artigo de Waldyr C. Luz, em que a defesa da tese igualitária
é feita sem qualquer referência às passagens principais
do Novo Testamento que restringem o ministério feminino ("O
Shiboleth do Ministério Feminino," em Revista Teológica
38 [1993] 55-65). O autor provavelmente considerou supérflua qualquer
análise, talvez por considerar essas passagens como incluídas
nos "preceitos de vigência limitada" (p. 59-60). Por outro
lado, Edijéce Martins Ferreira, (Por que Não Diaconisas?
[Recife, PE, 1990]), embora com maior apelo às Escrituras, tende
a interpretar estas passagens como sendo culturalmente condicionadas (cf.
pp. 14, 16).
3 Por exemplo, o manuscrito não publicado de Ruben Duffles, que
tem sido largamente difundido em meios presbiterianos ("A Mulher
na Igreja," 1995). O autor se propõe a demonstrar a fundamentação
bíblica da tese igualitarista e a sua fidelidade aos princípios
da exegese reformada; estranhamente, o autor cita como argumento para
a ordenação feminina uma "revelação direta
de Cristo" que o pastor coreano Paul Yonggi Cho teve em 1964, onde
Deus pretensamente lhe teria revelado que ordenasse mulheres ao ministério,
a chave do crescimento da igreja coreana (p. 71).
4 O estudo de Zélia Fávero Maranhão, O Erro Monumental
da Igreja Cristã (um "estelionato" exegético),
(São Paulo: Editora Parma Ltda, 1994), tem seus méritos
obscurecidos pela evidente falta de isenção de ânimos
(como o próprio título demonstra), generalizações
injustificadas, onde todos os estudiosos da Igreja através dos
tempos são acusados de "estelionato exegético,"
e de defenderem um "desvio satânico da verdade" (p. 9),
e por uma arrogância desnecessária: a autora se propõe
a "colocar a descoberto argumentos até hoje não lembrados
ou não analisados" (p. 10). Tal pretensão é
justificada pela evidente falta de conhecimento da autora da vasta literatura
sobre o assunto: "Não encontrei, no entanto, literatura específica
sobre os tópicos da tese que defendo..." (p. 10). Bastaria
uma pesquisa superficial sobre o material disponível em inglês,
alemão e francês, escrito por estudiosos de diferentes posições
sobre o assunto, para que se veja a falácia dessa declaração.
Por exemplo, consulte-se a extensa bibliografia publicada em Recovering
Biblical Manhood & Womanhood: A Response to Evangelical Feminism,
eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton, IL: Crossway Books) publicado
em 1991, portanto, 3 anos antes da publicação da obra de
Maranhão.
5 Como, por exemplo, a recomendação entusiástica
feita por Waldyr C. Luz da obra de Jane Dempsey Douglas, Mulheres, Liberdade
e Calvino: O Ministério Feminino na Perspectiva Calvinista, trad.
Américo Ribeiro (Manhumirim, Minas Gerais: Didaquê, 1995).
Cf. a resenha crítica desta obra feita por Tarcízio J. F.
Carvalho em Fides Reformata 2/1 (1996) 154-8.
6 Cf. o estudo de U-.K. Plisch, "Die Apostelin Junia: das Exegestische
Problem im Röm 16,7 im Licht von Nestle-Aland27 und der Sahidischen
Überlieferung," em New Testament Studies 42 (1996) 477-78.
7 Cf. John Piper e Wayne Grudem, "An overview of Central Concerns:
Questions and Answers," em Recovering Biblical Manhood & Womanhood:
A Response to Evangelical Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton,
IL: Crossway Books, 1991) 79-80.
8 Ibid., 80.
9 A. T. Robertson, Grammar of the Greek New Testament (New York: Hodder
and Stoughton, 1914) 171-173.
10 Com exceção da KJV, o que é aplaudido por feministas
como Berkeley Mickelsen e Alvera Mickelsen, "Does Male Dominance
Tarnish Our Translation?" em Christianity Today (5 de Outubro de
1979) 23-29.
11 Cf. James B. Hurley, Man and Woman in Biblical Perspective (Grand Rapids:
Academie, 1981) 121-122.
12 Alguns têm sugerido que Jesus não escolheu mulheres para
o colégio apostólico por que estava restrito pela cultura
da sua época: mulheres apóstolas não seriam aceitáveis
para os judeus da época, e colocariam em perigo a missão
de Jesus (cf. G. Bilezikian, Beyond Sex Roles [Grand Rapids: Baker, 1985]
236). Mas este argumento é somente especulativo, e ao final, coloca
Jesus numa situação difícil. Veja sua refutação
em Piper e Grudem, Recovering, 221-222.
13 Por exemplo, Paul K. Jewett, Man as Male and Female (Grand Rapids:
Eerdmans, 1975) 142.
14 Cf. Robin Scroggs, "Entrar na comunidade cristã significa,
portanto, filiar-se a uma sociedade na qual funções do tipo
homem-mulher, e avaliações baseadas nestas funções,
têm sido descartadas" ("Women in the NT" em The Interpreter’s
Dictionary of the Bible, volume suplementar [Nashville: Abingdon Press,
1976] 966).
15 H. Wayne House, "Neither... Male nor Female... in Christ Jesus,"
em Bibliotheca Sacra 145 (1988) 53-55.
16 Ann Coble, "The Lexical Horizon of ‘One in Christ’:
The Use of Galatians 3:28 in the Progressive-Historical Debate over Women’s
Ordination" (tese não publicada; St. Louis, Missouri; Covenant
Theological Seminary, 1994).
17 Uma exceção é a versão americana REB, que
traduz "símbolo de sua (da mulher) autoridade". Para
um artigo em defesa desta tradução, ver Morna D. Hooker,
"Authority on Her Head: An examination of 1 Corinthians 11.10,"
em New Testament Studies 10 (1964) 410-416.
18 Cf. Paige Patterson, "The Meaning of Authority in the Local Church,"
em Recovering Biblical Manhood & Womanhood: A Response to Evangelical
Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton, IL: Crossway Books,
1991) 257.
19 Ver, por exemplo, o artigo de Richard S. Cervin, "Does Kephale
Mean ‘Source’ or ‘Authority’ in Greek Literature?
A Rebuttal," em Trinity Journal 10 (1989) 85-112. Cervin nega o sentido
"autoridade sobre" e propõe "preeminência"
como alternativa.
20 O estudo mais decisivo foi feito por Wayne Grudem, no livro de George
W. Knight III, The Role Relationship of Men and Women, ed. revisada (Chicago:
Moody Press, 1985) 49-80.
21 Cf. o artigo de Thomas R. Schreiner, "Head Coverings, Prophecies
and the Trinity: 1 Corinthians 11:2-16," em Recovering Biblical Manhood
& Womanhood: A Response to Evangelical Feminism, eds. John Piper e
Wayne Grudem (Wheaton, IL: Crossway Books, 1991) 124-39.
22 Cf. Bilezikian, Beyond Sex Roles, 241.
23 Ver R.C Kroeger e C. Kroeger, "Subordinationism," em Evangelical
Dictionary of Theology, ed. Walter A. Elwell (Grand Rapids: Baker, 1984)
1058.
24 Schreiner, "Head Coverings," 128-30. Cf. ainda Stephen D.
Kovach, "Egalitarians Revamp the Doctrine of the Trinity" em
CBMW News 2/1 (1996) 1, 3-5. Talvez seja esclarecedor, a esta altura,
mencionar o conceito teológico reformado de Trindade ontológica
e Trindade econômica. Por ontológica nos referimos à
Trindade como ela é, como subsiste desde a eternidade. Pai, Filho
e Espírito Santo são iguais em substância, possuem
atributos e poderes idênticos, e portanto têm a mesma glória.
Por econômica nos referimos à Trindade como manifestada ao
mundo, especialmente na história da redenção, onde
as três pessoas exercem papéis diferentes relacionados com
a criação, redenção e santificação.
Nesta distribuição de atividades, o Pai envia o Filho, e
o Espírito procede do Pai e do Filho. Esta subordinação
do Filho ao Pai, e do Espírito ao Pai e ao Filho é perfeitamente
compatível com a igualdade predicada acerca da Trindade ontológica
(Cf. Loraine Boettner, Studies in Theology, 17ª edição [Presbyterian
and Reformed, 1983] 116-7).
25 Cf. Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, em New International
Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1987).
26 Veja a crítica de Carson à tese de Fee em "Silent
in the Churches," em Recovering Biblical Manhood & Womanhood:
A Response to Evangelical Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton,
IL: Crossway Books, 1991) 141-45.
27 Existe ainda a questão da pontuação do verso 33.
O ponto final deve ser colocado antes ou depois da expressão "como
em todas as igrejas dos santos"? Se colocado depois, o verso leria
assim: "Deus não é de confusão mas de paz, como
em todas as igrejas dos santos". Se antes, como na versão
Almeida Atualizada 2a. edição, teríamos: "Como
em todas as igrejas dos santos, conservem-se as mulheres caladas nas igrejas..."
Esta última pontuação é favorecida pela maioria
das traduções e dos estudiosos.
28 Apesar disto, ainda há quem procure defender que Paulo está
impondo silêncio absoluto às mulheres. Mas isto só
é possível aceitando-se que Paulo está se contradizendo
na mesma carta, no curto espaço de quatro capítulos, ou
que no capítulo 11 ele se refere a um tipo de reunião, enquanto
que no capítulo 14, a outra — algo totalmente improvável
pelo contexto. Cf. Carson, "Silent in the Churches," 145-6.
29 Carson analisa e rebate cada uma delas, cf. "Silent in the Churches,"
146-51.
30 Esta reconstrução é baseada no artigo de Douglas
Moo, "What Does It Mean Not to Teach or Have Authority Over Men?"
em Recovering Biblical Manhood & Womanhood: A Response to Evangelical
Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton, IL: Crossway Books,
1991) 180-2.
31 Uma outra corrente de interpretação sugere que o background
de 1 Timóteo 2.11-15 era que mulheres ricas e bem educadas da igreja
de Éfeso estavam perturbando o ensino dos presbíteros no
culto, interrompendo-os e querendo elas mesmas ensinar. Cf. Paul W. Barnett,
"Wives and Women’s Ministry (1 Timothy 2.11-15)," em Evangelical
Quarterly 61/3 (1989) 225-38. Esta interpretação reivindica
ter a seu favor o contexto imediato, em que Paulo, aparentemente, estaria
corrigindo mulheres ricas quanto ao vestuário e estilo de cabelo
a ser usado em público nas igrejas (cf. 2.9-10). Não é
claro, entretanto, que a exortação de Paulo nestes versos
nos permita inferir a existência e atuação de mulheres
ricas e educadas nos cultos da igreja de Éfeso. As evidências
da carta favorecem mais a tese da heresia feminista.
32 Ver 2 Timóteo 4.2, onde Paulo ordena a Timóteo que pregue
a Palavra com toda doutrina.
33 Presbíteros eram líderes, oficialmente reconhecidos (At
14.23; Tt 1.5; Fp 1.1) e ordenados pelas igrejas pela imposição
de mãos (1 Tm 5.22; cf. 1 Tm 4.14; At 13.1-3), que tinham três
funções básicas: Afadigar-se no estudo e exposição
da Palavra (1 Tm 5.17), governar a igreja (1 Tm 5.17; cf. 1 Tm 3.4-5;
Hb 13,7,17; At 20.28; 1 Pe 5.1-4), e presidir e promover a ordenação
de outros presbíteros (Tt 1.5; 1 Tm 3.1ss; 5.22).
34 Cf. Joyce Baldwin, Women Likewise (London: Falcon, 1973) 21-22.
35 Moo, "What Does It Mean," 188.
36 Cf. W.O. Walker, "The ‘Theology of Woman’s Place’
and the ‘Paulinist Tradition" em Semeia 28 (1983) 101-12.
37 Para uma defesa conservadora clássica da autoria paulina das
Pastorais, ver Donald Guthrie, New Testament Introduction, 3ª ed. rev.
(Downers Grove, IL: Intervarsity Press, 1970) 584-621.
38 Barnett, "Wives and Women’s Ministry," 225.
39 Moo, "What Does It Mean," 190.
40 Thomas Schreiner, "An Interpretation of 1 Timothy 2.9-15: A Dialogue
with Scholarship," em Women in the Church: A Fresh Analysis of 1
Timothy 2.9-15, eds. Andreas Köstenberg, etc. (Grand Rapids: Baker,
1995) 136.
41 Cf. John Piper and Wayne Grudem, "An Overview of Central Concerns:
Questions and Answers," em Recovering Biblical Manhood & Womanhood:
A Response to Evangelical Feminism, eds. John Piper e Wayne Grudem (Wheaton,
IL: Crossway Books, 1991) 73.
Lembre-se: ao usar um artigo cite a fonte. "...No Senhor o vosso trabalho não é vão".