CARTAS DO INFERNO
C.S Lewis
Recomendo
a todos a leitura do livro de C.S. Lewis (1898-1963), Cartas do Inferno,
em forma de alegórica. Em Cartas do Inferno encontramos as
instruções de um secretário infernal a seu pupilo,
um jovem tentador. O assunto: conselhos sobre como conquistar as almas
humanas, mesclados à maldade e ironia infernais. Nesse livro,
Lewis traça uma surpreendente visão do Inferno e da
alma humana abaixo está o prefácio:
Não tenho intenção de explicar como a correspondência
que ora ofereço ao público caiu em minhas mãos.
Há dois erros idênticos e opostos nos quais nossa espécie
pode cair acerca dos demônios. Um é não acreditar
em sua existência. O outro é acreditar e nutrir um interesse
excessivo e doentio neles. Os próprios diabos ficam igualmente
satisfeitos com ambos os erros e saúdam o materialista ou o
mágico com o mesmo deleite . O tipo de manuscrito que é
usado neste livro pode ser facilmente obtido por qualquer um que já
aprendeu o truque ; mas as pessoas mal intencionadas ou excitáveis
que podem fazer mau uso dele não o aprenderão de mim.
Os leitores devem se lembrar que o diabo é um mentiroso. Nem
tudo o que o diabo velho Morcegão diz deve ser aceito como
verdadeiro, mesmo de seu próprio ângulo . Não
fiz nenhuma tentativa de identificar qualquer um dos seres humanos
indicados nas cartas. mas penso ser muito improvável que os
retratos de gente como, digamos, o Padre Spike, ou a mãe do
paciente, sejam completamente justos. Há doces desejos tanto
no Inferno como na Terra. Em conclusão , devo acrescentar que
nenhum esforço foi feito para esclarecer a cronologia das cartas.
A de número XVII parece ter sido composta antes do racionamento
ter-se intensificado; mas, em geral, o diabólico método
dedatar não parece ter relação com o tempo terrestre
e não procurei reproduzi-lo. A história da Grande Guerra,
exceto quando acontece aqui e ali de violar a condição
espiritual de um ser humano, não era de interesse de Morcegão.
Meu caro diabo aprendiz Cupim,
Levo em conta o que tu dizes acerca de orientar as leituras de teu paciente e cuidar para que ele se encontre bastante com seu amigo materialista. Mas não estás sendo um tanto ingênuo? Parece que supões que a argumentação é a maneira de mantê-lo longe das garras do Inimigo. Isto poderia ser assim se ele vivesse há alguns séculos. Nesta época, os humanos ainda sabiam muito bem quando uma coisa era comprovada e quando não era; e se era comprovada, acreditavam nela. Eles ainda relacionavam o pensar com o fazer, e estavam preparados para alterar seu modo de vida como resultado de uma sucessão de pensamentos. Mas, com a imprensa semanal e outras armas do gênero, conseguimos alterar isto em grande medida. Teu homem foi acostumado, desde garoto, a ter uma dezena de filosofias incompatíveis dançando em sua cabeça. Ele não pensa em doutrinas como prioritariamente "verdadeiras" ou "falsas", mas como "acadêmicas" ou " práticas ", "superadas" ou "contemporâneas", "convencionais" ou "desumanas ". Jargão, não argumento, é o teu melhor aliado em mantê-lo longe da Igreja. Não perca tempo tentando fazê-lo pensar que o materialismo é verdadeiro! Faça-o pensar que é forte, tenaz, corajoso. Esta é a filosofia do futuro. Este é o tipo de coisa com a qual ele se preocupa. O problema com a argumentação é que ela leva toda a batalha para o campo do Inimigo. Ele também pode argumentar; enquanto que no campo da propaganda realmente pratica, do tipo que estou sugerindo, Ele tem se mostrado há séculos muito inferior a Nosso Pai Cá Embaixo. Pelo próprio fato de argumentar, tu despertas a razão do paciente; e uma vez desperta, quem pode prever o resultado? Mesmo se uma determinada série de pensamentos possa ser desvirtuada para terminar nos favorecendo, tu perceberás que tens reforçado no teu paciente o hábito fatal de prestar atenção a questões universais e afastado sua atenção do fluxo das experiências imediatas dos sentidos. Tua obrigação é fixar sua atenção no fluxo. Ensine-o a chamar-lhe "vida real e não o deixe perguntar o que se quer dizer com "real". Lembra-te, ele não é, como tu, um puro espírito. Por nunca ter sido um humano (Oh, esta abominável vantagem do Inimigo!), tu não percebes o quanto são presos pela pressão da experiência comum. Uma vez tive um paciente, um bom ateísta, que costumava ler no Museu Britânico. Um dia, enquanto lia, vi um encadeamento de pensamentos em sua mente começando a ir no caminho errado. O Inimigo, é claro, estava no seu calcanhar num instante. Antes de perceber o que sucedia, vi meus vinte anos de trabalho começarem a ruir. Se tivesse perdido o sangue-frio e começado uma defesa por meio de argumentação, estaria perdido. Mas não fui idiota. Ataquei imediatamente na parte do homem que estava sob meu maior controle e sugeri que já era tempo de comer algo. O Inimigo presumivelmente fez a contra-sugestão (tu sabes que nunca se consegue escutar tudo o que Ele diz a eles?) de que isto era mais importante do que um lanche. Pelo menos acho que foi isto que Ele sugeriu, pois quando eu disse: "Bem, na verdade algo demasiadamente importante para tratar no final de uma manhã", o paciente animou-se consideravelmente; e quando acrescentei: "Muito melhor voltar depois do lanche e abordar o tema com a mente descansada-, ele já estava a meio caminho da porta. Assim que chegou à rua, a batalha estava ganha. Mostrei-lhe um garoto gritando as manchetes do jornal do dia, um ônibus da linha 73 passando e, antes que ele chegasse ao fim dos degraus, eu lhe havia fixado numa convicção inalterável de que, sejam quais forem as idéias esquisitas que possam vir à mente de uma pessoa quando esta sozinha com seus livros, uma saudável dose de "vida real" (pela qual se quer indicar o Ônibus e o rapaz do jornal) é o bastante para mostrar que todo "aquele tipo de coisa" simplesmente não poderia ser verdade. Ele sabia que escapara por um triz, e anos mais tarde apreciava falar sobre "aquele senso inarticulado de realidade que é nossa última salvaguarda contra as aberrações da simples lógica". Hoje ele está salvo na casa de Nosso Pai. Tu começas a entender o problema? Graças a processos que pusemos em funcionamento há séculos, eles acham quase impossível acreditar no não-familiar, enquanto que o familiar esta diante dos olhos. Insista sobre o caráter comum das coisas com ele. Acima de tudo, não tente usar a ciência (quero dizer, as autênticas ciências) como uma defesa contra o Cristianismo. Elas certamente o encorajarão a pensar acerca de realidades que ele não pode tocar nem ver. Tem havido casos tristes entre os físicos modernos. Se tiver de dedicar-se superficialmente a ciência, mantenha-o ocupado com economia e sociologia; não o deixe afastar-se daquela inestimável "vida real". Mas o melhor de tudo é não deixá-lo ler sobre ciências, mas sim dar-lhe uma idéia geral de que conhece tudo, e que tudo que captou em conversas e leituras casuais é "resultado da moderna investigação". Lembra que tu estás aí para confundi-lo. Pela maneira que alguns de teus jovens demônios falam, suporíamos que nosso trabalho é ensinar!
Teu afetuoso tio, o diabo velho Morcegão.
Lembre-se: ao usar um artigo cite a fonte. "...No Senhor o vosso trabalho não é vão".