A SOBERANIA DE DEUS EM RM 9 a 11
“Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece...”
Confissão de Fé de Westminster, Cap III,1
Nestes dias de arrogância e ostentação humana, de
grande orgulho intelectual, do avanço da tecnologia e dos processos
de informação e do enorme avanço da ciência,
tendo como exemplo maior a clonagem não só de animais, mas
também de seres humanos, fica claro que o homem tem menosprezado
a Deus. Na verdade sentem-se como o próprio. O homem criado deseja
ser o Criador. Falar sobre Soberania de Deus, em muitos lugares é
assunto desconhecido. Muitas vezes, até mesmo no meio das igrejas.
Quase não se vê pregações acerca deste tema,
talvez por ser algo “desacreditado”, ou pequeno diante dos
“grandes homens”. Busco aqui, apresentar a soberania de Deus
e sua relação com os Capítulos 9, 10 e 11 da Epístola
de Paulo aos Romanos, iniciando por uma breve introdução
sobre a soberania na sua generalidade até chegar à especificidade
do tema.
INTRODUÇÃO
Como não é o intuito aqui um aprofundado comentário
sobre a epístola, segue uma breve apresentação geral
da carta que “verdadeiramente é a mais importante peça
do Novo Testamento. O evangelho mais puro” Sem dúvida, o
assunto principal de toda a Epístola é a justificação
pela fé. É a partir daqui que Paulo irá desenvolver
toda a sua carta. Vejamos o desdobramento disto resumidamente. Paulo apresenta:
Capítulos de 1 a 8 – o tema (1.16,17); a condenação
de todos (gentios e judeus) e a necessidade da justificação
(1.18 a 3.20); o meio para se alcançar a justificação,
“única e exclusivamente na misericórdia de Deus, em
Cristo, ao ser ela oferecida no evangelho e recebida pela fé”
(3.21-4.25); a vida dos justificados pela fé (5-8). Capítulos
de 9 a 11 – a incredulidade de Israel; a escolha soberana de DEUS;
a responsabilidade do homem; o propósito de Deus para Israel e
para a humanidade. Capítulos de 12 a 15 – o modo de viver
do cristão como membro da igreja, como cidadãos do Estado
e questões de consciência. Capítulo 16 – quase
inteiramente dedicado a saudações, com alguns ensinamentos.
Conclui com uma notável oração (Rm 16.25-27). Embora
se possa ver a soberania de Deus explícita em toda a carta, os
capítulos de 9-11 serão alvo deste estudo. Karl Barth referindo-se
a esta seção da carta afirmou ser “a proclamação
misericordiosa, porém também rigorosa, rigorosa, porém
também misericordiosa, de Deus para com o povo de Israel, vontade
essa a reger livremente cada passo dado.” A soberania de Deus, então,
abrange a predestinação e eleição divina,
pois estão diretamente ligadas, ficando claro nestes capítulos
que Deus é sobre todos e age de acordo com os seus propósitos,
“pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de
usar Deus a sua misericórdia”
A SOBERANIA DE DEUS
“A escritura é a escola do Espírito Santo, na qual
nada se omitiu que não fosse necessário e útil de
se conhecer; tampouco nada se ensina senão o que convenha saber”
(Calvino, As Institutas, III 21.3) Quando se fala de soberania de Deus,
se fala da Sua supremacia, da Sua realeza, da Sua magnitude, da Sua divindade.
Dizer que Deus é soberano é declarar que Deus é DEUS
(Êx 3.14). Quando se lê a Bíblia e se reflete a respeito
da pessoa de Deus o primeiro conceito que se vislumbra é a soberania
divina! Na verdade, toda a Bíblia gira em torno da soberania divina,
partindo da criação de todas as coisas, (Deus era antes
de tudo - Cl 1.17; Sl 90.2), passando pela escolha do povo e relacionamento
com Israel, provocando a irrupção do tempo salvífico
com a vinda de seu filho Jesus e na promessa da redenção
final, com a volta de Cristo. Deus não só criou todo o universo
(Gn 1; Jo 1.3), para a sua Glória, bem como é o sustentador
de todo este universo (Hb 1.3; Rm 11.36). Deus não está
sujeito a nenhuma regra ou lei fora de sua própria vontade e natureza,
pois Ele está acima de todas as coisas (Ef 4.6; Sl 97.9). Assim
não tem qualquer obrigação de prestar contas dos
seus propósitos a quem quer que seja. Deus conhece todas as coisas
(Sl 139; Sl 147.5; Hb 4.13; Rm 11.33) e pode fazer todas as coisas (Lc
1.37; Jr. 32.27) por ser o Todo Poderoso, somente assim pode realizar
todas as coisas (Is 46.9-11). Desta forma, pode-se concluir que Deus governa
sobre todas as coisas (Veja ainda 1ª Cr 29.11-12; Sl 29.10) e está
no controle de todas as coisas: dos reis (Pv 21.1; Ap 19.16); dos acontecimentos
humanos (Dn 4.17; Is 55.11); dos anjos bons (Ap 4.8; 1Rs 22; Jó
1.6) e dos anjos maus (Ef 1.21); do próprio satanás (Jó
2.1; Lc 22.31; Ap 20.10). Fica claro, então, que a soberania de
Deus revela a sua GRAÇA redentora onde reside a iniciativa, a busca
e a salvação através da fé em Cristo Jesus.
A soberania de Deus é absoluta, irresistível, infinita!!!!
A SOBERANIA DE DEUS NA SALVAÇÃO
João em sua primeira carta vai dizer que “Nós amamos
porque ele nos amou primeiro” . Em seu evangelho afirma que “ninguém
pode ir a Jesus se o Pai não o levar até ele” . Paulo,
na epístola aos Romanos, capítulo três, verso onze
diz: “não há quem entenda, não há quem
busque a Deus;” e escrevendo aos Efésios ensina que “pela
GRAÇA sois salvos, mediante a fé; e isto não vem
de vós; é dom de Deus” . O homem só pode ser
salvo se o próprio Deus o alcançar. É o que chamamos
de GRAÇA. Alguém já afirmou que GRAÇA é
favor imerecido da parte de Deus. Pink apresenta sua definição:
“A GRAÇA divina é bem mais que favor não merecido.
Dar comida a um mendigo que me bate à porta é um favor não
merecido, mas longe está de ser GRAÇA. Suponha-se, porém,
que eu alimentasse esse mendigo faminto, depois de ter sido assaltado
por ele - isto seria GRAÇA.” Ao Senhor pertence a salvação
, mas o Senhor não salva a todos. Por que não? Os salvos
não são os que crêem e confessam Jesus Cristo como
Senhor e Salvador ?. Os não salvos são os que não
crêem. Mas por que uns crêem e outros não? Seria apenas
uma recusa pessoal? A palavra de Deus nos ensina que não é
esta a verdade. A resposta é que, Deus como soberano, é
quem estabelece a diferença entre os eleitos e os não-eleitos.
A fé é um Dom de Deus, que não é concedida
a todos , mas somente aos eleitos do Senhor “... e creram todos
os que haviam sido destinados para a vida eterna.” É por
isso que vamos ler “...a fé que é dos eleitos de Deus.”
Pelo fato de ser Deus soberano e agir como lhe apraz! A passagem das Escrituras
Sagradas que mais enfatiza a soberania absoluta de Deus, em relação
à sua disposição quanto ao destino de suas criaturas
é exatamente o capítulo 09 da epístola aos Romanos.
Para Lutero, é neste trecho que “São Paulo nos ensina
sobre a eterna providência de Deus”. “Tu, porém,
me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu
à sua vontade? Quem és tu, ó homem, para discutires
com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me
fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para
do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra? Que diremos,
pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder,
suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição,
a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória
em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão,
os quais somos nós, a quem também chamou, não só
dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” Esses versículos
apresentam o homem decaído como tão inerte e sem poder é
o barro na mão do oleiro. Isto deixa claro que não há
diferença intrínseca entre os eleitos e os não eleitos,
pois pertencem à mesma massa. Assim o destino final de todo indivíduo
é decidido pela vontade de Deus. Glória a Deus porque é
assim!!! Imagine se tudo fosse entregue à nossa própria
vontade. Sem a mão de Deus sobre nós, estaríamos
todos fadados a ter nosso destino final no Lago de Fogo. “É
a fonte original que determina quem deveria acreditar ou não, quem
poderia ser livre do pecado e quem não pode. Tais assuntos têm
sido lançados fora de nossas mãos e são colocadas
nas mãos de Deus de maneira que nós devamos nos tornar virtuosos.
É absolutamente necessário que isso seja assim, pelo que
nós somos tão fracos e incertos de nós mesmos que,
se isso dependesse de nós, nenhum ser humano seria salvo. O diabo
nos venceria a todos nós. Mas Deus está resoluto; Sua providência
não falhará, e ninguém pode impedir sua realização.
Por esta razão nós temos esperança contra o pecado.”
Deus fez uma escolha, uma eleição antes da fundação
do mundo, selecionando um povo, predestinando-o à adoção
de filhos, predestinando-o a ser conformado à imagem do seu Filho
e ordenando-o para a vida eterna. Muitos são os textos bíblicos
que demonstram esta verdade.
A SOBERANIA DE DEUS E A INCREDULIDADE DE ISRAEL
Paulo termina o capítulo oito da sua carta aos Romanos, falando
da impossibilidade de separar o povo de Deus do seu amor preservador,
apresentando várias circunstâncias possíveis aos olhos
humanos . Diante da possibilidade dos judeus, a partir desta colocação
paulina no capítulo oito, acharem-se seguros por serem povo de
Deus, Paulo passa a reafirmar seus pressupostos e bases, com a seção
de 9 a 11. Primeiro ele se une aos judeus, demonstrando uma verdadeira
agonia pessoal (“grande tristeza e incessante dor no coração”
), uma tremenda tristeza pela perdição dos seus irmãos,
compatriotas, segundo a carne. Ao declarar o desejo de ser anátema
(separado de Cristo), prova o mais ardente amor pelos judeus, uma vez
que isto significaria que estaria pronto a receber a condenação
que estava sobre eles, se de alguma forma isto os fizesse alcançarem
a salvação. Paulo expõe que os judeus possuem características
distintivas do resto da raça humana. Mediante o pacto, Deus os
exaltara sobre todas as outras nações, escolhendo-os para
serem seu povo (“separados da ordem comum do gênero humano”
), concedendo-lhes “a adoção, a glória, as
alianças, a legislação, o culto e as promessas, os
patriarcas, bem como a descendência de Cristo”. Mesmo tendo
os judeus este privilégio , rejeitaram-no ao apostatarem, não
crendo no Cristo. Todavia isto não os impediu de estarem ainda
debaixo da GRAÇA divina, como fica explícito em 3.3,4 (“E
daí? Se alguns não creram, a incredulidade deles virá
desfazer a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma...”). O fato da
existência de um remanescente, preservado por Deus para si, explica
que a rejeição à salvação oferecida,
não é total. Pois israelitas não são os que
descendem de Abraão, mas todos os eleitos de Deus, alcançados
pela sua GRAÇA revelada em seu filho Jesus Cristo. A soberania
de Deus fica aqui exaltada e, como não existe a possibilidade de
separar, ligada à eleição divina. A soberania de
Deus está na manifestação de seu favor e GRAÇA.
Não é por serem descendentes de Abraão e participarem
do pacto da circuncisão que todos são filhos de Deus. Filhos
de Deus são os que, por Ele mesmo , foram separados e creram em
Cristo Jesus, ou seja, a eleição divina faz distinção
entre pessoas desta nação, predestinando alguns para a salvação
e outros para a condenação eterna. E isto depende, exclusivamente
da vontade soberana de DEUS! Não há mérito nenhum
nos eleitos. Não foram escolhidos por serem melhores que os não
escolhidos, “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”
e ainda “concluímos, pois, que o homem é justificado
pela fé, independente das obras da lei”. Portanto a incredulidade
de Israel se dá dentro dos propósitos soberanos do Deus
Altíssimo. Paulo, inclusive, insiste com seus leitores sobre a
soberania da eleição divina.
A SOBERANIA DE DEUS E A SALVAÇÃO DE ISRAEL
Uma vez que a incredulidade de Israel está dentro dos propósitos
do soberano Deus, como fica então a salvação deste
povo, uma vez que para eles existe a promessa de serem povo de Deus? A
resposta está em que povo de Deus é o conjunto dos eleitos
(judeus e gentios) que crêem e confessam Jesus Cristo como salvador
de todos os homens. No capítulo nove Paulo mostra aos judeus que
eles são responsáveis por sua rejeição a DEUS,
uma vez que buscavam a justiça pelas obras, o que é totalmente
impossível, pois a justiça diante de Deus é somente
pela fé em Cristo. Expostas as razões pelas quais Deus rejeitara
os judeus, Paulo volta a afirmar a vocação dos gentios.
Todavia, enfatiza que a forma pela qual o homem obtém a salvação
é tão comum e acessível, tanto aos gentios quanto
aos judeus. O pacto de Deus com os patriarcas de Israel não foi
abolido por causa da infidelidade do povo, pois a adoção
é gratuita e fundamentada unicamente em Deus. Deus não rejeitou
os judeus a ponto de anular suas promessas. Assim não rejeitou
toda a raça de Abraão, o que não impediu que alguns
descendentes se salvassem (ex.: Paulo ) A eleição geral
do povo de Israel não impediu Deus de separar para si, em consonância
com seu secreto conselho, aqueles que lhe aprouve eleger. No capítulo
11, pode-se ver que aqueles a quem Deus escolheu, sem levar em conta seus
méritos, são salvos pelo seu poder. É a GRAÇA
de Deus que os alcançou. Dentro do povo de Israel existe o remanescente,
que se constitui naqueles os quais Deus elegeu segundo a Sua GRAÇA.
Embora pareça que a grande maioria esteja fora da nação
dos eleitos, há um grupo alcançado e separado por Deus.
Os demais (v.7), foram endurecidos para perdição eterna.
A exclusão da maioria dos judeus não durará para
sempre! Este é o tema apresentado por Paulo no capítulo
11. Para Cranfield, esta exclusão é a oportunidade para
a entrada dos gentios, bem como para que seja provocado nos incrédulos
judeus o despertamento para o que estão perdendo e serem conduzidos
ao arrependimento. O que é compartilhado por Hoekema ao afirmar
que os eleitos de entre Israel obtiveram salvação, enquanto
que outros entre eles foram endurecidos, ambos pelo mesmo evangelho. Isto
ocorrido como propósito soberano de Deus para que fosse provocado
nos israelitas ciúmes, com o intuito de trazê-los de volta.
Há um endurecimento temporal por parte de Deus (revelando que não
é apenas por questão de simples desobediência humana,
mas que é devida ao endurecimento divino, como cumprimento dos
seu propósito soberano), até que chegue a plenitude dos
gentios, ou seja, um grande numero daqueles que devem ser salvos até
o fim da história. Acontecido isto, então “todo Israel
será salvo”. A expressão “E, assim, todo o Israel
será salvo...” , oferece interpretações diversas.
Para Cranfield, todo o Israel significa a nação de Israel
como um todo, embora não necessariamente incluindo cada membro
individual. . Hoekema entende ser uma conversão em larga escala
da nação de Israel. Lutero também compartilha das
anteriores. Contrária a estas, Calvino, interpreta como sendo a
totalidade dos eleitos por toda a história, judeus e gentios. Particularmente,
simpatizo com a interpretação de que grande parte do povo
de Israel voltará para os braços do Pai, pela fé
em Cristo, uma vez que no início Paulo fala do endurecimento ao
povo de Israel, e em todo o contexto próximo parece apontar para
esta afirmativa. Então a misericórdia de Deus ainda está
sobre os judeus e muitos serão salvos pela GRAÇA soberana
de Deus. Paulo concluirá este capítulo mostrando a sua misericórdia
para com todos, tanto judeus como gentios, reafirmando o amor do Altíssimo
para com todos (os eleitos).
CONCLUSÃO
Hoekema lembra que num mundo que ainda há uma grande dose de anti-semitismo,
não devemos deixar nunca de lembrar que Deus não rejeitou
seu povo de sua antiga aliança, e que ele ainda tem seu propósito
para Israel. É Deus quem determina a condição de
cada indivíduo em consonância com sua vontade. A razão
por que Deus elege uns e rejeita outros é encontrada unicamente
em seu propósito soberano.
A misericórdia divina, sendo gratuita e soberana, não está
obrigada nem restringida a nada e a ninguém, senão que se
volte para onde lhe apraz. Deus na sua soberania, antes da fundação
do mundo escolheu o seu povo, e este é composto tanto de judeus
como de gentios, pois não faz acepção. Os seus propósitos
são inescrutáveis, inexplicáveis pela mente humana.
E Glória a Deus por isso, pois caso o homem fosse capaz de tudo
entender e explicar, ele não seria Deus. “A soberania de
Deus, na sua totalidade, excede o meu entendimento, todavia revela-me
salvação”
Pr. Weber Sérgio
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SPURGEON, Charles H. Eleição. Fiel, São Paulo, 1996.
Lembre-se: ao usar um artigo cite a fonte. "...No Senhor o vosso trabalho não é vão".