Em busca da graça...
Em sua autobiografia espiritual, chamada Uma confissão, Leon Tolstoi menciona que os cristãos às vezes tratam uns aos outros de maneira pior que as pessoas de outras crenças. Quando penso nos indivíduos cristãos que conheço, vejo algumas pessoas que mudaram para melhor por causa de sua fé, mas também encontro alguns que pioraram bastante. Para cada cristão gracioso, animado, motivador e perdoador, posso apontar um que é orgulhoso, malvado e julgador e que não entendeu a graça de Deus. Em um mundo regido pela Lei, a graça se levanta como um sinal de contradição. Queremos justiça; o evangelho nos dá um homem inocente pregado numa cruz, que clama: "Pai, perdoa-lhes". Queremos respeitabilidade; o evangelho exalta coletores de impostos e samaritanos. Queremos sucesso; o evangelho inverte os termos, movendo o pobre e o oprimido para o centro das atenções e os ricos e famosos para os bastidores. Só existe uma maneira de todos nós resolvermos a tensão entre os altos ideais do evangelho e a triste realidade de todos nós: aceitar que nunca estaremos à altura, mas que também não temos de estar vivendo como pecadores insensíveis que não vêem o poder da graça de Deus. A graça de Deus é o que permeia o ensinamento de Jesus e é nela que devemos fixar nossos olhos. Em sua resposta ao jovem rico, na parábola do bom samaritano, em seus comentários sobre o divórcio, o dinheiro e qualquer outra questão moral, Jesus nunca rebaixou os ideais de Deus. "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento" (Mt 22:37). Deus nos ama não por aquilo que somos ou que fizemos, mas por aquilo que Deus é. Jesus perdoou uma adúltera, um ladrão na cruz, um discípulo que o negou, mesmo conhecendo-o. A graça abrange todas as coisas. Ela se estende inclusive para as pessoas que pregaram Jesus na cruz sem uma justificativa: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23:34). E é nessa graça altruísta que devemos fixar nossos olhos e não naquilo que achamos ou julgamos ser o certo ou errado. Viver o evangelho deve ser mais que uma expressão jogada ao vento. Deve permear a vida como um todo e fluir em direção daqueles que nos cercam como um balsamo suave que cura as feridas da almas e não que as aumentam.

